James Ellroy levanta-se e a sala inteira diminui, torna-se lilliputiana. O escritor californiano, 61 anos, autor de alguns dos melhores policiais negros da actualidade, tem altura de basquetebolista. Mais intimidante é, todavia, a sua reputação de figura difícil, imprevisível e intolerante com a imprensa.  Um actor exibicionista e egocêntrico, dizem. O próprio confessa: "Gosto de representar para uma platéia, inclusive para os leitores." Hoje, veste a pele de cavalheiro cortêz e calmo, que pondera as respostas e cruza as mãos sobre o queixo. Apesar de fazer um auto-elogio sem pudores nem ironia. Ellroy escreveu vários livros que marcaram o género, com uma linguagem dita staccato e desabrida, anti-heróis de que é difícil gostar, um ritmo feroz. Não é de estranhar que dois dos seus livros tenham sido adaptados, com sucesso, ao cinema: L.A. Confidencial e A Dália Negra.

Este último aborda o assassínio da mãe, em Los Angeles, em 1958, quando ele tinha dez anos - um mistério nunca resolvido. Sangue Vadio (Editorial Presença), Blood's a Rover no original, será editado em Maio, fechando a trilogia iniciada com American Tabloid (1995) e The Cold Six Thousand (2001), inéditos em Portugal. E cruza figuras reais e fictícias, tendo como pano de fundo os assassínios de Bobby Kennedy e Martin Luther King, as tensões raciais, as movimentações da Máfia: Wayne Tedrow, ex-polícia e traficante; o jovem detective Don Crutchfield; o agente do FBI Dwight Holly;  J. Edgar Hoover, o temido director do FBI; Richard Nixon, Presidente dos EUA; ou Howard Hughes, o milionário que sonhou Las Vegas. Corrupção, conspiração e confissão a rodos.

Sangue Vadio é um enorme mosaico de personagens e factos, quase um 'par e passo' dos anos 1968 a 72 na América. É o seu livro mais complexo?

É o meu livro mais ambicioso e o mais ideológico. É também o mais assombrado pelo amor, pelas mulheres, pelo transcendente. É um romance sobre Tudo - a perda, a política, o sexo, a política do sexo, a História... Aborda também a relação simbiótica entre a esquerda e a direita, numa altura particularmente dramática da história norte-americana. É um grande livro! Tem tanta coisa que, se interrompe a leitura, perde-se o fluxo da informação, o ímpeto. E o ímpeto é importante porque quero provocar nos meus leitores um estado obsessivo.

Porque entrecortou a narrativa com informação documental -  notícias de jornal, cartas, "escutas" e memorandos do FBI?

Para transportar o leitor para além dos pontos de vista dos protagonistas. São pausas para dar o feeling de tablóide, e para mostrar os conflitos: Hoover a falar com Nixon, Hoover a falar com Dwight, Dwight a falar com Nixon... Essa documentação é toda inventada. Sangue Vadio é o resultado de alguma pesquisa, muitas anotações e imenso planeamento. Levei noive meses a delinear a trama e onze meses a escrever. Gosto de arte grandiosa. E este livro é assim.

Quando fala de arte grandiosa, fala de...?

Beethoven. Só existe Beethoven! Há Beethoven e, depois, há tudo o resto. Aí está a metáfora para a minha obra. Ele é o músico mais genial de todos os tempos. É aquele que eu mais gostaria de imitar: o construtor de obras sinfónicas de escala formidável. E o mais transcendente.

Deus, portanto. E como é que relaciona Beethoven com o seu universo de policial negro?

Nunca gostei de rock'n'roll, é uma música idiota, para miúdos. Quando tinha treze anos, comecei por ouvir primeiro música clássica. Tinha posters de Beethoven colados no meu quarto. Agora, imagine um rapazinho que queria escrever livros, um solitário com uma mãe assassinada, um pai falhado e grandes sonhos. Pense na coragem que esse rapaz possuía, para ir tão fundo, por muito mau que pudesse ser. Ninguém será alguma vez Beethoven, mas eu adoro uma grande obra de arte.

Haverá quem diga que Ellroy é o Beethoven do romance negro?...

É verdade! É é o maior cumprimento que já recebi. Não há nada mais grandioso do que o repertório romântico. Rachmaninoff, Chopin...  Trago essa admiração para o romance, para o encontro entre mulheres e homens. É assim que faço os livros. Estou disposto a sentar-me na escuridão, muito tempo, a pensar e a planear.

Obras-primas convocam beleza e verdade. Nos seus livros, repletos de crimes e corrupções, são qualidades raras. Ou não?

Neste livro, estão lá. Estão no rapaz [o detective Don Crutchfield] que persegue uma mulher durante três anos, nove meses e doze dias. É uma peregrinação. Aliás, há conotações religiosas espalhadas por todo o livro. A beleza e a verdade surgem também quando um homem e uma mulher se envolvem, de forma violenta e cheia de compaixão. Ele [o agente do FBI Dwight Holly] tem uma crise de consciência sobre os seus actos. Quando as pessoas começam a mudar, a questionar-se o que lhes fizeram e o que eles fizeram aos outros... Como acontece com Wayne,  chamado de racista, quando não o é.  No livro anterior, The Cold Six Thousand, ele mata um negro,  porque este violou e assassinou a sua mulher. Neste livro, tem o azar de acontecer algo a um negro sempre que ele entra em cena, e Wayne vê-se, de repente, envolvido na conspiração para matar Martin Luther King. 

Considera este livro uma história de amor. Quer explicar porquê?

Tive um esgotamento nervoso em 2001, descrito no próprio esgotamento do personagem Dwight Holly.  A minha segunda mulher [a escritora Helen Knode] divorciou-se de mim. Conheci uma mulher chamada Joan. Ela tinha cabelo magnífico, era de esquerda e judia. Tivemos uma relação apaixonada e tempestuosa. Acabou mal. Tínhamos temperamentos incompatíveis,  e crenças opostas. Ela era de esquerda, eu sou de direita. Judia, cristão. Crente, ateu. Fiz uma versão dela, dramatizada, no livro. E fiz os três protagonistas ficarem obcecados, de formas diferentes, por ela.

Os três são versões de James Ellroy?

Sim, sou eu com diferentes disfarces. Fiquei muito comovido quando escrevi este romance, que é dedicado a esta mulher que nunca mais verei. Enviei-lhe uma cópia do livro, mas ela nunca me contactou. Segui em frente [Ellroy vive, hoje, com outra escritora, Erika Schickel]. Mas Sangue Vadio é um livro romântico, atravessado pela revolução e pela transcendência. Encontra-se a quintessência desse diálogo, na cena em que Dwight vê o diário de Joan, ali deixado de propósito. Ele adormece, acorda e encontra-a ali. Ela pergunta-lhe: "O que queres?" Ele diz: "Quero cair e que tu me apanhes na queda." Esta cena é a alma e coração do meu livro.

Parece igualmente um epitáfio para uma certa ideia da América. É assim?

É uma visão romântica da América durante um período de grande mudança. Pelo confronto de opostos, de ideais, de raças. Homens brancos estúpidos, homens negros estúpidos... Pólos opostos como o encontro do heterossexual introspectivo Crutchfield e o exuberantemente homossexual Sal Mineo... É uma visão generosa da América que os meus livros anteriores não tinham. 

Antes, tinha uma visão dura?

Não mais dura, mas mais pequena. Mais preocupada com o estilo e a concisão e a corrupção masculina... Li o Libra, do Don DeLillo, que me deu um novo olhar sobre esta época. Mas o romance era tão bom que eu quis ser tão bom como o DeLillo. No próximo ano, publicarei um livro de memórias,  The Hillicker Curse. Será muito respeitoso em relação às mulheres da minha vida, não é uma memória sexual. Assumo aí as minhas culpas.

Publicou já a autobiografia My Dark Places, em 1996. Porquê o regresso ao género?

Tenho de falar sobre mim, contar-me. Sou um exibicionista! Sinto a necessidade de me confessar, de expressar a beleza e o horror e o maravilhamento da minha vida, em termos muito pessoais. Tecnicamente, vou olhar para o passado com um novo ponto de vista. Moralmente, terei  o jovem Ellroy a fazer disparates e o Ellroy maduro a comentá-los.

Leremos revelações sobre o assassínio da sua mãe, Geneva Hillicker Ellroy?

O que compreendi acerca da morte da minha mãe, quando escrevi as minhas memórias, é que éramos uma história de amor. E compreendi até que ponto a sua recordação mediava a minha relação com as mulheres. Foi depois de escrever Sangue Vadio que entendi que isso era uma maldição. Esse novo livro de memórias lida com a história da sua morte e continua a partir daí. Mas o próximo romance será completamente diferente e maior de tudo o que escrevi antes.

Pode especificar?

Sangue Vadio termina a minha carreira, cronologicamente. Só escreverei sobre antes de 1972. Porque tudo é demasiado recente, há demasiadas pessoas ainda vivas de que perdi o rasto, e é complicado escrever sobre elas. Os próximos livros serão mais acessíveis ao leitor, menos complexos, e haverá diferenças ousadas na forma como narro o tempo. Serão mais românticos. 

O que o interessa em 1972?

[J. Edgar] Hoover está morto. E o facto de o livro ser publicado assim, permite que a minha Joan continue viva.

Descreve Hoover e Luther como "um urso pardo a investir contra um chihuahua. Como controlou a sua escrita sobre figuras reais desta grandeza?

Confio em mim próprio para ficcionar dentro das latitudes da realidade. E contrato pesquisadores que me trazem factos e cronologias. Mandei a melhor amiga da minha ex-mulher à República Dominicana [no livro, a Máfia quer abrir casinos]. Ela tirou fotografias, voltou com mapas. Investigou as duas convenções políticas, a republicana e a democrática [em 1968], a biografia de Howard Hughes, e deu-me uma listagem, mês a mês, dos passos das três figuras históricas. Foi suficiente. A história favoreceu-me, pois a América não se intrometeu demasiado no Haiti ou na República Dominicana porque os seus dois ditadores eram anti-comunistas. Portanto, tive espaço de manobra para ficcionar e misturar.

Não sentiu o dever de ser fiel aos mitos? 

Quis apenas ter a certeza de que não escrevia erros. Se os personagens reais e os inventados se fundem convincentemente, se os factos são correctos, e se a estrutura é credível, então os leitores acreditam.No resto, permito-me a liberdade de interpretar. Por exemplo, o rumor de que Hoover era uma drag queen é um disparate! Ele era demasiado discreto e feio para parecer uma mulher. Penso que era um homossexual reprimido, que tinha razer em falar com tipos bem parecidos e másculos. Mas inventei que Howard Hughes era chamado de Drácula, porque me diverte e ele era uma figura ridícula.

Os seus personagens são vilões, machistas, corruptos. O que é, para si, importante neles?

A sua humanidade. As pessoas tinham a transcendência presente. A sensação de que tudo era possível. Este é um romance não apenas de crime, mas de ideias.

Os seus livros definem-se ainda como policiais, para não desapontar o seu público?

Não foi uma decisão minha, essa categorização é um consenso crítico. Principalmente aqui na Europa, querem pôr etiquetas em tudo o que se escreve. Tive muito más experiências com entrevistas, por exemplo: as pessoas querem fazer-me falar sobre Bush e o Iraque e Obama.

Porquê a relutância em opinar sobre?

Não quero que este livro seja considerado uma metáfora ao mundo actual. O fenómeno da ideologia, interessa-me, tal como me interessa a relação simbiótica entre as antigas esquerda e a direita: a esquerda precisava de dinheiro, a direita precisava de informação. Alimentavam-se mutuamente. Mas a construção politica da década de 60 é tão complexa que não quero que as minhas opiniões, sejam elas quais forem, distraiam a atenção. Além disso, vivo uma vida muito isolada. Não tenho televisão nem telemóvel, não leio livros nem vou ao cinema, não sigo o que se passa no mundo. As únicas coisas que me interessam são a música clássica, as mulheres, os cães, escrever.

As duas eleições de Nixon, o assassínio de Kennedy, os movimentos negros, emolduram Sangue Vadio. Onde estão os outros eventos importantes desses anos?

Os movimentos estudantis, o rock'n'roll, e outros temas não são abordados, porque o livro parte dos pontos de vista dos protagonistas - homens que não queriam saber disso para nada! Por exemplo, Karen pensa que pode explodir prédios sem magoar animais nem pessoas! E o agente do FBI, Dwight, precisa dela para experimentar sentimentos de família e para expiar a sua culpa. Sangue Vadio não pretende ser um livro sobre a América, mas sobre uma mentalidade de certos aventureiros americanos: mercenários, criminosos, estrelas cadentes de Hollywood...

Disse, certa vez, que se lembrava bem destes tempos dos anos 60 mas que estava distante das lutas ideológicas. O que andava a fazer?

Estava perdido na minha própria aventura, a usar drogas, a beber imenso e a fazer disparates ilegais, como arrombar casas dos vizinhos, espiar miúdas, e roubar-lhes lingerie.