A nossa primeira viagem realmente em interrail, ou seja, de comboio, era a mais longa e demorada (ficámos já habituados!). A ligação entre Bucareste e Budapeste demora pouco mais do que 14 horas e é feita de noite. Por isso mesmo, já tínhamos feito a reserva de camas para este percurso assim que chegamos a Bucareste - na altura, escolhemos duas camas numa camarata para seis pessoas, por ser mais económica e porque sabíamos, à partida, que o conforto nunca ia ser muito.

Pouco passava das 18h30 quando encontrámos o nosso comboio, na linha 11, da estação Gara de Nord, e, depois de meia-dúzia de perguntas ao revisor, que mal sabia falar inglês, percebemos qual era a nossa carruagem. Já lá dentro, o espaço pareceu-nos demasiado pequeno para tantas pessoas, com tantas mochilas, tróleis, sacos de mão, malas. E foi tudo ainda mais confuso porque metade das pessoas que lá estavam só falavam romeno. No final, percebemos que quem tinha cama tinha que ir sempre deitado (com as mochilas, os tróleis, os sacos de mão e as malas em cima, ao lado ou aos pés) e que, no nosso compartimento, ia mais um tímido-rapaz-inglês (que não tinha só uma mochila ou uma mala - tinha uma mochila gigante, um saco de mão e ainda uma outra mochila mais pequena) e um senhor de meia-idade. Ainda o comboio não tinha partido e eu já tinha comentado que não queria que viesse mais ninguém para a nossa divisória, tal era a falta de espaço que se fazia sentir.

Entendemos que a sensação claustrofóbica não era só nossa quando o rapaz inglês, magro, com mais ou menos a nossa idade e nada dado a conversas, nos disse que, depois de falar com o revisor, que tinha pago mais uns trocos e trocado para um compartimento maior. E confirmámos essa mesma sensação quando o senhor de meia-idade pegou na bagagem dele, desejou-nos boa viagem e foi para um repartimento sozinho. Depois de tanta confusão, acabamos por ficar com espaço suficiente para nos deitarmos e sentarmos quando quiséssemos, e colocarmos as nossas mochilas no chão ou noutras camas, em vez de dormimos (literalmente) com elas.

Dormir (ou tentar dormir) num comboio não se revelou nada fácil - o barulho é constante, há sempre pequenas luzes a entrar pela janela, a privacidade é muito pouca (as portas dos compartimentos não fecham por completo, nem sequer trancam) e há, frequentemente, pessoas a passear pelo corredor que dá acesso às casas-de-banho. Não nos sentimos seguros nem estáveis (ou, pelo menos, alguns de nós não arranjam tranquilidade suficiente para dormir a noite toda).

Mas, pior do que acordar de hora a hora para confirmar se está tudo bem, é ser acordado bruscamente na fronteira - primeiro pelos guardas romenos, que fizeram tanto barulho nas outras divisórias que, quando chegaram à nossa, que ficava no fundo da carruagem, já eu estava desperta, e depois pela segurança húngara que, apesar de ser mais discreta, também acordou todo o comboio para analisar detalhadamente o "Passaport or ID Card" de todos os passageiros.