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"Temos de ser criativos"

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Henrique Pinto, presidente da CAIS, foi a Bruxelas receber o segundo lugar do Civil Society Prize, entregue pelo Comité Económico e Social Europeu

Sónia Sapage, em Bruxelas

Há seis anos que o Comité Económico e Social Europeu (CESE) instituiu o Civil Society Prize para reconhecer o trabalho feito por associações de países da União Europeia nas áreas do ambiente, da solidariedade social, da inovação e da sustentabilidade. O prémio é composto por um pesado troféu - ele próprio reciclável, para dar o exemplo - e trinta mil euros em dinheiro que, este ano, foram distribuídos por três: cinco mil euros para o terceiro lugar , dez mil para o segundo e quinze mil para o terceiro.

 Até ao dia 12 deste mês, nunca nenhum português tinha subido ao palanque de uma sessão plenária do Parlamento Europeu, em Bruxelas, para receber esta distinção. A tarefa coube a Henrique Pinto, presidente da CAIS, que contava com a companhia de Cristina Reis, sua colega na associação criada em 1994, para apoio dos sem-abrigo.

A CAIS foi uma das 23 nomeadas pelo CESE para o prémio deste ano. Carlos Ferreira Martins, membro e conselheiro da instituição europeia, foi o responsável pela proposta bem sucedida. "O que me fez propor a CAIS foi terem-me dito que nunca uma associação portuguesa tinha sido sequer nomeada, porque nunca nenhum português tinha abraçado esta causa. Fiquei muito contente", conta à VISÃO.

Em Bruxelas, a VISÃO conversou com o presidente da CAIS, numa entrevista aqui reproduzida.

Critina Reis e Henrique Pinto, da CAIS, com Carlos Ferreira Martins, do CESE

 

 O que espera que venha com o prémio, além dos dez mil euros?

O dinheiro iremos canalizá-lo para os projetos que temos em curso porque já lá vai o tempo em que as coisas funcionavam com avé marias e milagres. Hoje é necessário dinheiro. Mas, nas nossas relações com o setor económico e outras instituições, o prémio será útil para comprovar que as nossas práticas são reconhecidas até a nível europeu. Isso torna-nos mais credíveis, não tanto prestigiados, mas credíveis. Mas gostava que este prémio servisse também para criar uma rede entre todos os vencedores, de anos anteriores. Gostava que se mantivesse o contacto e que continuássemos a ser ouvidos e a trocar ideias. Porque nesta área precisamos de estar sempre a criar soluções. Temos de ser criativos.

 

É o que a CAIS tem tentado fazer?

Claro! Nós entrámos neste prémio com cinco projetos, todos inovadores. Um deles é a venda da revista que dá trabalho a 100 pessoas (os vendedores compram cada edição a 0,60 cêntimos e vendem-na a dois euro, e o lucro é seu). São quinze mil exemplares. Além disso, estamos a lavar carros a seco, interior e exterior, junto de empresas (CAIS Auto). Já formámos 27 e temos agora cinco pessoas nas lavagens. Também temos um serviço de engraxadores, com quatro mestres que formaram entretanto outros homens (Projeto Tradição - Engraxadores). Outro projeto é a CAIS Recicla, para reciclar resíduos industriais da Unicer, porque a CAIS trabalha com muitas empresas, perto de 40, neste momento. E também temos um serviço, junto de empresas, em que as nossas pessoas podem fazer recados.

 

Como funciona exatamente?

É um projeto recente que está a funcionar junto da Merck. Um colaborador precisa que lhe lavem um casaco e a nossa pessoa vai lá buscá-lo, depois lava-o e vai entregá-lo no mesmo dia. Essa pessoa, que é o António, recebe dois euros por cada serviço, um de quem faz a encomenda, outro da empresa. Estamos a começar e a tentar persuadir outras empresas e colaboradores a solicitar este serviço.

 

O que é que fazia antes de se envolver na CAIS?

Eu fui um dos fundadores, em 1994, com um conjunto de pessoas, entre elas o já falecido Diogo Vasconcelos. Hoje, a CAIS tem 18 profissionais e muitos voluntários, consoante os eventos. Antes de tudo isto, estive ligado a um instituto missionário durante 12 anos. Vivi em África, em Inglaterra, na Ásia, andei um pouco por aí e esta questão esteve sempre comigo.