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Aprender a ajudar

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Marcos Borga

Sónia Fernandes criou uma escola de voluntariado que ensina os alunos a serem parecidos com Cristiano Ronaldo

Estava tudo preparado para mais uma tradicional noite de Natal. Família reunida, mesa posta e embrulhos reluzentes junto do pinheiro iluminado. Até que o patriarca chegou a casa com mais um conviva para a ceia. Um sem-abrigo ia juntar-se à família. "Foi um choque. Ao princípio, não gostei nada de ter um estranho em casa, na noite da consoada", recorda Sónia Fernandes que, à época, estaria com uns 8 anos. Hoje, tem 36.

Hesita em dizer que o episódio foi "o" momento de viragem na sua vida, mas não lhe nega a importância: "A educação também é dada através dos atos." Atuar, agir e executar são palavras que fazem parte do léxico das sessões de formação, na Escola de Voluntariado Pista Mágica.

O projeto está sediado no Porto, mas também desenvolve atividades em Lisboa. Iniciação ao voluntariado, constituir uma associação e missões internacionais são alguns dos temas dos cursos que Sónia leciona. "Um coração grande não chega para fazer um trabalho de qualidade. É preciso adquirir competências", defende a antropóloga que, depois de um mestrado em ação humanitária, vai lançar-se a um doutoramento em sociologia.

A experiência de Sónia no Terceiro Setor vai além da academia.Começou a fazer voluntariado aos 14 anos e já esteve no terreno em países como Timor-Leste, Moçambique e Togo. "É preciso funcionar como um clube de futebol: jogar em equipa e ter sentimento de pertença ", explica, com o seu jeito despachado, aos formandos que assistem a um workshop de gestão de voluntários.

"Se as pessoas sentirem que não fazem diferença, acabam por desistir." Ter objetivos, e alcançá-los, é uma lição essencial para manter um grupo motivado. Sónia não tem dúvidas: "Cristiano Ronaldo daria um ótimo voluntário, porque detesta perder!"

MISSÕES DE RISCO

As situações-limite que viveu em algumas das suas missões foram o ponto de partida para a criação da escola. Em Moçambique, devido à ausência de um briefing de segurança, deu por si sozinha, à noite, numa perigosa rua de Maputo. A experiência não se ficou pelo susto.

Foi vítima de um ataque violento, com uma arma branca, que lhe deixou uma cicatriz no braço direito. Em Timor, uma sépsis (infeção geral grave do organismo), provocada pela falta de acesso a água potável, atirou-a para uma cama de hospital.

A decisão de ser mãe foi outro dos motivos que a levou a despedir-se das missões e do emprego nas Nações Unidas para criar o seu próprio projeto. "Percebi que, com a escola de voluntariado, podia contribuir para o bem-estar geral, em larga escala, dando competências aos outros para mudarem o mundo." Com um sorriso rasgado, reforça a ideia: "Sim, eu acredito que podemos mudar o mundo."

De olhos postos no futuro, promove a cidadania ativa e o voluntariado em escolas do 1.º ciclo, e até escreveu um livro infantil para facilitar a tarefa. O título é revelador daquilo que procura mostrar: Todos temos asas, mas apenas os voluntários sabem voar (Imoedições, €9,90).

A maior parte das pessoas que procuram a Pista Mágica são mulheres, com estudos superiores. Apesar da média de idades estar nos 35/40 anos, também aparecem muitos jovens na casa dos vinte. Com ou sem experiência, trazem sempre expectativas elevadas. Sónia faz questão de lhes mostrar que há dificuldades no caminho de quem se dedica ao trabalho humanitário. Não nega que já pensou em desistir, mas acaba sempre por voltar. "As dificuldades são tantas que temos de ser parte da solução."

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O bom voluntário

Além da vontade de ajudar, é preciso reunir outras características:

. Assiduidade

. Espírito de equipa

. Partilhar os valores da organização acolhedora

. Capacidade física e psicológica, para realizar as tarefas

. Combater os seus preconceitos, para ajudar toda a gente com dignidade