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VISÃO entrega donativo da edição Solidária

Os nossos heróis

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O logótipo da VISÃO foi colocado no painel que homenageia as entidades que já ajudaram a instituição

José Caria

Através de uma votação online, os leitores da VISÃO escolheram doar parte das receitas da edição especial Solidária à Associação Vale de Acór, um centro de recuperação de toxicodependentes. O projeto inclui renovar a cozinha e criar um curso profissional de culinária

"Para grande surpresa nossa saiu-nos esta grande rifa", afirma, sorridente, o presidente da Associação Vale de Acór, padre Pedro Quintela, 46 anos. "A grande rifa" resulta do donativo de 50 cêntimos do preço de capa da segunda edição da VISÃO Solidária, lançada em novembro do ano passado.

A Vale de Acór é um centro de recuperação de toxicodependentes, com quase 20 anos de existência, localizada em Almada. A vizinhança nem sempre é fácil. De um lado, uma fábrica ruidosa. Do outro, o bairro Pica-Pau Amarelo, que deve a má fama, precisamente, ao tráfico e consumo de droga. "Não podemos apostar no afastamento geográfico", lamenta o presidente.  

Esta Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) foi escolhida pelos leitores da VISÃO através de uma votação online. O dinheiro será usado para recuperar a velha cozinha e a copa da Quinta de São Lourenço, onde funciona a instituição. O projeto de requalificação inclui, também, a abertura de um curso de formação profissional em alta cozinha para os residentes com patologia psiquiátrica.   

COZINHA TERAPÊUTICA  

A socióloga Margarida Spencer, 56 anos, integra a equipa de 17 colaboradores diretos da instituição. Como é apaixonada por gastronomia, usa a cozinha como espaço terapêutico, já que os utentes são os responsáveis pelas refeições, além das demais atividades de gestão da quinta. As tarefas são uma forma eficaz de recuperar a autoestima. "É bom saber que somos capazes de fazer alguma coisa, além de destruir vidas", declara, emocionado, Rui, 34 anos, há seis meses na instituição.

"A cozinha é um espaço lúdico, onde todos se sentem mais livres. Como não estão obrigados a falar, acabam por baixar as defesas e contam as suas histórias uns aos outros, promovendo a intimidade entre os vários elementos do grupo", explica, orgulhosa, a socióloga.

Jorge, 37 anos, está há um ano na Vale de Acór e o que mais valoriza são "as relações que se constroem com os outros, como se fosse uma família".

Além da recuperação da cozinha, com diversos problemas graves apontados pela última inspeção, também está a ser delineado um curso profissional que deverá contar com a colaboração da Faculdade de Ciência e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa localizada, tal como a associação, na margem sul do Tejo.   

O diretor da VISÃO, Pedro Camacho, entregou o donativo em mãos ao presidente da Vale de Acór, Padre Pedro Quintela

UMA VIDA NOVA

A "casa", como o presidente gosta de chamar à instituição, alberga, neste momento, 63 utentes residentes e 20 em fase de reinserção. Esta última etapa do tratamento inclui a procura de emprego e de casa para uma integração social completa. A esmagadora maioria são do sexo masculino. "As mulheres procuram menos ajuda", acredita Filipa Líbano Monteiro, 45 anos, da direção da instituição.

Depois da reinserção, os percursos são diferentes. Há quem faça por esquecer o episódio negro e não regresse à instituição, enquanto outros preferem manter a ligação com visitas esporádicas.

"Onde é que eu estaria se não tivesse encontrado a Vale de Acór?", pergunta-se, muitas vezes, Pedro, 57 anos. Concluiu o tratamento de desintoxicação em 2005, mas acabou por ficar como monitor, a ajudar na gestão da casa. A reinserção dos mais velhos é a mais complicada. Nem sempre há família para os receber ou lares disponíveis.

Com os sucessivos cortes e atrasos nos pagamentos do Estado, o financiamento privado passou de opcional a obrigatório, para garantir a sobrevivência da instituição. Atualmente, cerca de 40% do orçamento vem do privado. O Estado comparticipa 80% do tratamento por pessoa, os restantes 20 deveriam estar a cargo dos utentes, mas a realidade é bem diferente. "São raros aqueles que têm família ou família em condições de pagar cerca de 200 euros", confessa Filipa Líbano Monteiro, antes de acrescentar: "mas ninguém fica na rua por causa disso".