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VÍDEO: A força do silêncio

Os nossos heróis

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Depois de fazer um filme com os alunos surdos da escola Jacob Rodrigues, da Casa Pia de Lisboa, o produtor de cinema Fernando Centeio resolveu lutar para melhorar os espaços de convívio dos estudantes. VEJA O VÍDEO

No princípio era o cinema mudo e esta história também começa com um filme (quase) mudo. Não se trata de O Artista, do realizador francês Michel Hazanavicius, que arrecadou as categorias mais importantes dos Oscars deste ano. Neste caso, o cenário não é a Hollywood de finais dos anos 1920, mas uma escola no centro de Lisboa em pleno século XXI.

O filme/documentário GESTO (a dualidade deve-se à mistura entre factos reais e aspetos romanceados), realizado por António Borges Correia, foi rodado no Centro de Educação e Desenvolvimento Jacob Rodrigues Pereira, uma instituição da Casa Pia de Lisboa, no ano passado.

"Em 23 anos de cinema nunca me tinha acontecido nada parecido", confessa, admirado, o produtor do filme, Fernando Centeio, 45 anos. Na hora de dizer adeus, não foi capaz. "Eles deram-nos tanto durante as filmagens. Senti que devíamos deixar uma marca na escola".

Com a ajuda da intérprete de língua gestual Ana Sofia Fernandes, Irina Pereira, 21 anos, e Vanessa Teixeira, 17 anos, acompanham as confissões do produtor da Zufilmes enquanto trocam sorrisos cúmplices. Ambas fizeram parte do elenco de atores surdos que protagonizou o filme.

A conversa não poderia ter lugar noutro sítio. A recém-inaugurada sala de convívio é a prova da ligação que se manteve entre os alunos e Fernando Centeio: pinturas frescas, candeeiros novos, mesas e cadeiras a estrear e um sofá improvisado que convida à preguiça.

"Agora temos uma sala com vida. Estas cores todas dão-nos ânimo para o dia-a-dia e acalmam-nos", dizem os gestos de Irina.

APOIO EM TEMPOS DE CRISE

Depois das filmagens, ao aperceber-se de que os espaços de convívio da escola precisavam de uma remodelação, Fernando Centeio resolveu arrancar com o projeto "Dar mais vida ao Jacob". Começou por contactar várias empresas e, à medida que ia conquistando os patrocínios, avançava com a renovação. Apesar do clima económico, os empresários colaboraram: "Houve uns quantos 'não', mas com persistência conseguimos". A jornalista Dora Alexandre também ajudou a angariar apoios, depois de se ter deixado conquistar pelos alunos do Jacob durante uma reportagem que fez na escola.

A Nestlé contribuiu com as mesas, cadeiras e chapéus-de-sol para a nova esplanada, o atelier ADORO foi responsável pelo projeto de remodelação, a SONY doou dois computadores portáteis, a Dyrup as tintas, as empresas Caixilar, SAPA e Vidrofornense contribuiram para a renovação de caixilharia e vidros e a Fundação Montepio, por exemplo, ofereceu o tempo dos voluntários da instituição.

"Até fiz um peditório durante uma caminhada de 17 km com o Clube Natura para angariar dinheiro para a mesa de matraquilhos", conta, divertido.

Orgulhosos, Fernando, Irina e Vanessa conduzem-nos para o pátio exterior que ganhou novas caras com as ilustrações de João Mascarenhas, que também colaborou na iniciativa.

O ecrã plasma para a sala de convívio e uma consola de jogos Playstation 3 já estão a caminho para fazerem as delícias dos cerca de 150 alunos surdos que frequentam o espaço.

Ao olhar em volta, o produtor faz nova confissão: "Já é um lugar-comum dizê-lo, mas este tipo de iniciativas também é muito egoísta - ficamos a sentir-nos muito bem connosco próprios".

ESTRELAS DE CINEMA

O telefone toca e interrompe a conversa. Fernando Centeio atende e, sem cerimónias, diz: "Estou no Jacob, já te ligo". Ninguém estranha que ali esteja. Passa por lá todas as semanas, muitas vezes para levar os protagonistas às projeções que acontecem no circuito dos cineteatros pelo país fora.

Apenas António Coelho, que desempenha a personagem principal de GESTO (que também se chama António), deixou o Jacob para estudar na escola António Arroio, em Lisboa. O seu projeto de vida foi o ponto de partida para o argumento do filme: um jovem de 18 anos, surdo profundo, que quer ser realizador de cinema e decide ir viver para os EUA.

Um sonho que Fernando acredita ser possível concretizar e para o qual quer contribuir. Já avisou o jovem aspirante a cineasta que está disposto a produzir a sua primeira curta-metragem.

Sem rodeios ou sentimentalismo, fala com base na sua experiência cinematográfica: "Do ponto de vista comercial, acho que não terei quaisquer dificuldades em promover o filme. Qualquer pessoa estará expectante para saber o que um surdo consegue fazer".

SEM FRONTEIRAS

Quando soube que ia ser uma das protagonistas do filme GESTO, Vanessa Silva nem queria acreditar, sempre achou que o produtor iria à procura de outros atores. Durante as filmagens, coube-lhe, muitas vezes, o papel de fazer a ponte entre ouvintes e surdos, uma vez que conserva parcialmente a audição. Uma tarefa que não se importa de desempenhar. A estudante do 10º ano gostava que houvesse mais oportunidades e que, por exemplo, existisse uma personagem surda numa novela.

Irina destaca a importância de o filme ser exibido além-fronteiras. "Os surdos são tão capazes como os ouvintes. O GESTO mostra isso", defende.

"Não é um filme para surdos, é um filme com surdos", esclarece o produtor que faz questão de exibir a película para plateias heterogéneas que incluam surdos e ouvintes. Um chamariz eficaz para o público em geral são as participações especiais dos atores Alexandra Lencastre, Adriano Luz e José Raposo.

Para encurtar distâncias entre surdos e ouvintes durante a rodagem, toda a equipa do filme frequentou um workshop de língua gestual. Fernando Centeio até passou a despedir-se da filha de 13 anos com um I love you (amo-te) em língua gestual.  

Com os intérpretes por perto, a comunicação não foi um problema. Em pouco tempo, realizador e atores começaram a entender-se através de gestos e olhares.

DESCONFIANÇAS À PARTE

Mas nem sempre é fácil ultrapassar a fronteira entre surdos e ouvintes. Irina sente que, muitas vezes, os ouvintes afastam-se porque partem do princípio de que os surdos não serão capazes de os compreenderem. No seu olhar expressivo, vemos a questão desenhada: "Porque não tentam aproximar-se? Até podem ficar com vontade de aprenderem Língua Gestual", traduz a intérprete.

Com o seu jeito despachado e simpático, Fernando Centeio chama à atenção das raparigas e relembra que "não são só os ouvintes que têm de fazer um esforço, os surdos também precisam de fugir do isolamento".

"Obviamente que eles são desconfiados porque não ouvem. Imagine que está com um grupo de amigos e não percebe nada do que eles dizem, claro que se vai sentir desconfortável", exemplifica.

Com sorrisos envergonhados, e bem instaladas no sofá da nova sala de convívio, Irina e Vanessa confirmam as palavras de Fernando Centeio.   

Talvez o regresso às origens do cinema ajude a mostrar que o mundo de surdos e ouvintes não é assim tão diferente. São sempre as ações que falam mais alto. Mesmo em Hollywood.

José Caria