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Um campeão não chora

Os nossos heróis

Fugiu do Afeganistão aos 8 anos; aos 15, pouco depois de chegar a Portugal, venceu o campeonato nacional de boxe. A extraordinária história de Farid valeu-lhe um prémio de Direitos Humanos

A conferência Os Nossos Heróis, Histórias na Primeira Pessoa realizou-se na sede da Lusitânia Seguros, em Lisboa.
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A conferência Os Nossos Heróis, Histórias na Primeira Pessoa realizou-se na sede da Lusitânia Seguros, em Lisboa.

A conferência é uma iniciativa conjunta da VISÃO e do Montepio.
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A conferência é uma iniciativa conjunta da VISÃO e do Montepio.

Coube ao presidente da IMPRESA, Francisco Pinto Balsemão, fazer o discurso inaugural do evento.
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Coube ao presidente da IMPRESA, Francisco Pinto Balsemão, fazer o discurso inaugural do evento.

Os vencedores da 1.ª edição do prémio Os Nossos Heróis foram os protagonistas do encontro, Aqui, estão sentados ao lado do doretor da revista VISÃO, Pedro Camacho.
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Os vencedores da 1.ª edição do prémio Os Nossos Heróis foram os protagonistas do encontro, Aqui, estão sentados ao lado do doretor da revista VISÃO, Pedro Camacho.

O presidente do Montepio apelou a uma sociedade com uma consciência social mais forte e não deixou de criticar o atual código contributivo.
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O presidente do Montepio apelou a uma sociedade com uma consciência social mais forte e não deixou de criticar o atual código contributivo.

A sala do auditório da sede da Lusitânia Seguros encheu-se de público, atento às histórias dos «heróis» descobertos pela VISÃO.
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A sala do auditório da sede da Lusitânia Seguros encheu-se de público, atento às histórias dos «heróis» descobertos pela VISÃO.

A jovem Bárbara Silva, 18 anos, falou das suas motivações para criar um grupo de apoio aos sem-abrigo.
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A jovem Bárbara Silva, 18 anos, falou das suas motivações para criar um grupo de apoio aos sem-abrigo.

No final da apresentação, Bárbara chamou ao palco a sua principal inspiração: a mãe.
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No final da apresentação, Bárbara chamou ao palco a sua principal inspiração: a mãe.

Bernardo Teixeira da Motta criou o Movimento 1 Euro para acabar com as desculpas dos amigos que diziam não ter tempo para ajudar.
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Bernardo Teixeira da Motta criou o Movimento 1 Euro para acabar com as desculpas dos amigos que diziam não ter tempo para ajudar.

O Movimento 1 Euro já doou bens no valor de 40 mil euros.
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O Movimento 1 Euro já doou bens no valor de 40 mil euros.

'Chorei muito. Muito. Demais. Agora, já não consigo chorar. E ainda bem. Sou um homem. Não preciso de chorar." Apesar da cara de menino e da timidez aparente, há qualquer coisa em Farid que confirma as suas palavras. Uma determinação indefinida no olhar, a autoconfiança desafiante no tom de voz, o sorriso sereno a maturidade forçada de quem nunca teve infância. Sentado numa sala do Centro de Acolhimento para Crianças Refugiadas, em Lisboa, Farid Walizadeh, 16 anos, conta a sua história com desassombro e sem o mais leve sinal de autocomiseração.

Quando tinha oito anos, conta, foi posto fora de casa pelo tio, que cuidara dele desde o dia em que os pais o abandonaram, na cidade de Puli Khumri, no Nordeste do Afeganistão.

Entregue aos serviços de um "agente", seguiu com um grupo de desconhecidos, fugitivos da guerra e da fome, atravessando as gélidas montanhas em direção ao Paquistão, a centenas de quilómetros de distância.

Alguns iam de cavalo ou de burro. O frágil Farid seguia a pé. "O meu tio não pagou o suficiente para eu ter direito a um burro", diz, num português ainda incipiente.

O verdadeiro perigo só começou do lado de lá da fronteira, na odisseia para atravessar o Paquistão e o Irão, com a Turquia no horizonte. "Sabíamos que se os polícias nos apanhassem batiam-nos, prendiam-nos e depois mandavam-nos de volta para o Afeganistão." O agente escondia os migrantes em casas devolutas ou em abrigos de animais, onde ficavam horas ou dias, alimentados a pão e, com sorte, tomate. Durante a viagem, uns desapareciam, outros apareciam. Ao entrar na Turquia, após mais uma caminhada desumana pelas montanhas do Noroeste do Irão, a criança já não tinha por perto um único dos seus companheiros originais. Finalmente, ao fim de nove meses, Farid renasceu em Istambul. Ali se encontrava a Europa, do outro lado do Bósforo.

Pátria temporária

O menino de Puli Khumri estava escondido em mais um abrigo temporário, com duas dezenas de pessoas, quando a polícia local irrompeu pela casa. Todos foram algemados e encaminhados para a rua, de onde seguiriam para a esquadra. Só Farid ficava para trás ainda não tinha pulsos para algemas.

"Fui ter com um polícia e pedi-lhe, por favor, que me levasse também. Não queria ficar sozinho." O Estado turco tratou bem dele. Viveu num orfanato e passou depois para um centro de refugiados; entrou para a escola; mergulhou pela primeira vez no Mediterrâneo e descobriu, da pior forma, que a água do mar não é boa para beber, ao contrário da do rio da sua terra; e percebeu a vocação para as artes marciais, enquanto esperava que o Alto Comissariado das Nações Unidas para os os Refugiados (organismo presidido por António Guterres) decidisse o que fazer com ele. Seis anos mais tarde, chegou a resposta: Portugal dar-lhe-ia um telhado, no âmbito do protocolo que atribui uma quota anual de 30 crianças refugiadas ao País. A notícia deixou o adolescente desalentado.

De Portugal, só conhecia o nome de Cristiano Ronaldo. E julgava ter encontrado já a sua casa. Mas as burocracias são sempre cruéis na sua indiferença opaca.

Em dezembro de 2012, Farid, então com 15 anos, aterrou em Lisboa e foi encaminhado para o Centro de Acolhimento para Crianças Refugiadas, no parque da Bela Vista. "A adaptação não foi fácil", recorda a coordenadora da instituição, Dora Estoura.

"É sociável, mas também reservado, com problemas de afetividade." Durante os primeiros encontros, os assistentes sociais descobriram que o jovem ganhara alguns combates de taekwondo. Foi assim que Orlando Jesus, treinador de boxe do Clube Desportivo de Arroios, recebeu um telefonema. "Vi que o rapaz tinha imensas qualidades importantes no boxe", recorda Orlando Jesus, que o treina pro bono. "É humilde e dedicado, gosta da modalidade, bate com força, esquiva-se bem dos golpes. Um brilhante por limar. Logo comecei a prepará-lo para atacar o título nacional." O estatuto de refugiado dava-lhe equivalência à nacionalidade portuguesa, e, cinco meses e quatro combates vitoriosos depois, Farid Walizadeh sagrava-se campeão de cadetes, na categoria de -57 quilos.

Há um mês, porém, deixou de praticar e ficou sem clube, depois de o treinador ter sido eleito presidente da Associação de Boxe de Lisboa. "Eu posso e quero treiná-lo na mesma, mas o novo cargo não me permite subir ao ringue com ele, e um treinador faz muita diferença aí, junto às cordas, durante os combates." O sucesso no campeonato nacional, atingido numa situação particularmente difícil, levou o júri do Prémio Direitos Humanos, da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, da Assembleia da República, a atribuir-lhe uma medalha de ouro, numa cerimónia marcada para o próximo dia 10, no Palácio de São Bento.

Farid não parece deslumbrado. Um outro episódio recente da sua vida ajuda-o a relativizar tudo o resto acredita ter encontrado a mãe. "Um primo pôs-me a falar com ela", relata, com inédito entusiasmo. "Sei que é a minha mãe: tenho um sinal aqui atrás [aponta para a base da nuca] de que só ela pode saber. E tenho três irmãos e duas irmãs!" A família reunir-se-á com Farid em Portugal, depois de enviar provas de parentesco são frequentes os casos de fraude, buscando alcançar o estatuto de refugiado na Europa.

Agora, mais do que nunca, Farid diz ter um incentivo para fazer algo de bom com a sua vida. Promete dedicar-se com mais afinco aos estudos (frequenta o 9.º ano na Escola 2+3 das Olaias) e fazer os possíveis para chegar a arquiteto, para sustentar a família.

Mas isso só para o caso de a sua primeira e maior paixão falhar. "Quero ser pugilista. Não tenho medo de ninguém. Não tenho medo na cabeça. Não tenho medo da dor. A vida tem muita dor. Dor é bom." Mas há uma dor que lhe é insuportável: ter uma mala cheia de medalhas e ninguém a quem as mostrar.