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Quem dá a mão à Leque?

Os nossos heróis

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"Divergências processuais" impedem a Segurança Social de apoiar, há dois anos, um dos projetos sociais mais premiados a nível nacional, a associação Leque Apacne, de Alfândega da Fé - e que, agora, corre o risco de fechar as suas portas

"Bom dia, meu Leque!", atira, carinhosamente, Celmira Macedo, ao cruzar o jardim onde se agacha João, arrancando as ervas daninhas que ameaçam asfixiar os amores-perfeitos. O adolescente ajeita a pala do boné que o protege do sol e da timidez. Sorri e continua o seu trabalho a sua formação, na verdade, só existe graças a esta professora de ensino especial, de 41 anos. Leque é o nome da associação que criou com um grupo de pais de filhos com necessidades especiais, há quatro anos, em Alfândega da Fé, Trás-os-Montes. "Leques" passaram a ser todos os beneficiários das atividades que ali se desenvolvem, dos ateliês de cozinha às aulas de pintura, da psicomotricidade à terapia da fala ou à fisioterapia.

A associação veio preencher o vazio de apoios que Celmira Macedo detetou na região transmontana quando fez o seu mestrado. Avançou para o doutoramento na Universidade de Salamanca, em Espanha, mas não conseguiu entusiasmar-se com a teoria quando, na prática, tanto estava por fazer. "Ao perceber que havia mais de quinhentas famílias para dois terapeutas da fala... foi difícil ficar quieta." Começou por criar uma "escola de pais" em Bragança, para ajudar as famílias a lidarem com a diferença dos filhos. Foi um sucesso, que depressa começou a ser replicado noutras zonas.

Depois nasceu o centro de atendimento, com atividades terapêuticas, funcionais e lúdicas, na antiga casa do povo de Alfândega da Fé, dando apoio a cerca de 30 utentes - adultos, sobretudo, para quem o Estado não tem qualquer tipo de resposta, na zona de Trás-os-Montes. Contudo, da equipa inicial de 12 elementos, sete contratados e cinco voluntários, só restam hoje dois lugares fixos - e com seis meses de salário em atraso. "Todas as atividades têm sido mantidas com recurso ao voluntariado, o que é insustentável, a longo prazo", lamenta Celmira Macedo.

A associação está há dois anos em negociações com a Segurança Social para obter os apoios previstos na lei às instituições que prestam apoios terapêuticos nesta área, mas esta semana o diretor do centro distrital de Bragança anunciou que "o problema da Leque é que não se enquadra nos acordos de cooperação tipificados para a área da deficiência" e que essas "discrepâncias processuais" impedem o apoio do Estado. Celmira Macedo indigna-se: "O facto de sermos uma resposta atípica não pode invalidar a criação de um protocolo. Se me dissessem que não havia cabimento orçamental, teria de compreender... Mas não podem penalizar-nos por sermos empreendedores e inovadores."

Além do centro de atendimento, edificado com o apoio do município, da Fundação EDP e parte dos fundos obtidos com o prémio da Fundação Manuel António da Mota, no valor de 50 mil euros, a Leque iniciou a construção de um centro de noite, para albergar jovens e adultos com necessidades especiais. Prestes a sair do papel encontra-se, ainda, uma fábrica de brinquedos adaptados que poderá vir a financiar todas as atividades da associação, financiada pela fundação EDP e Montepio. Um dos jogos, uma espécie de dominó criado por Celmira Macedo, ensina os nomes dos animais e frutos com figuras visuais, sons e texturas, além de língua gestual e braille. É um jogo inclusivo e único permitirá, pela primeira vez, que crianças surdas brinquem, por exemplo, com crianças cegas.

No ano passado, esta professora de ensino especial, que foi distinguida pela VISÃO como um dos "Heróis Transformadores" da nossa sociedade, conseguiu ainda realizar outro sonho, inaugurando um centro de férias para crianças com deficiência. Muitas famílias temem agora que o apoio da Leque lhes falte, ainda antes do verão.