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'Educar é ensinar às pessoas o que lhes faz falta'

Os nossos heróis

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Sanjit Bunker Roy, o criador do Barefoot College, na Índia

Liete Quintal

Para Sanjit 'Bunker' Roy, o criador do Barefoot College, na Índia, o grande erro do Ocidente é subestimar as capacidades de quem vive de forma diferente

Tem uma história poderosa, porque desfaz a ideia de que a crise se resolve apenas de cima para baixo. Sanjit Roy, 60 anos, educado nas melhores escolas de Nova Deli, um dia foi para o campo ensinar os mais desfavorecidos. Na semana passada, 'Bunker' Roy, como é conhecido, contou a sua experiência nas Conferências do Estoril, que decorreram sob o lema Desafios Globais, Respostas Locais. A seguir, falou com a VISÃO.

Porquê criar uma 'universidade dos pés descalços'?

Ainda não tinha decidido o que fazer na vida quando conheci uma das zonas mais pobres da Índia. Quando se vai para escolas caras, não nos mostram esses lugares. Isso mudou a minha vida. Tinha 20 anos. Sabia que não queria ser banqueiro, empresário ou diplomata. Era o que aconteceria, se não me tivesse desviado do caminho. Só a minha mãe não aceitou logo a minha opção. 

"A Educação é a chave para mudar o mundo" ou não é bem assim?

Diria que sim, mas mais como Mark Twain disse: "Nunca deixe que a escola interfira com a sua educação." Na escola, aprendemos a ler e a escrever. Mas a educação não pode ser dissociada das nossas raízes. Educar tem de ser ensinar às pessoas o que lhes faz falta. 

Quem pode estudar no Barefoot College?

Tem de ser iletrado, viver numa aldeia, nunca ter ido à escola, ser respeitado na comunidade - e ser pobre. A seleção justa tem de ser a que beneficia os mais desfavorecidos. 

É possível alargar a experiência a outros lugares?

Claro. No hemisfério Sul, existem 54 países em desenvolvimento. Em todos eles há problemas que não se resolvem por preconceito. As pessoas letradas não acreditam que transformamos analfabetos em engenheiros, médicos ou dentistas, sem ensiná-los a ler. Ignoram que quem não sabe ler, nunca esquece... Pergunto: Onde nos leva o fascínio pela educação a todo o custo? Não se arranja emprego, aceita-se um qualquer e, depois, é-se muito infeliz. Um desperdício. 

Mas se as populações ainda vivem com um dólar por dia, que diferença faz?

Eles vão mudar, agora que têm os olhos abertos e podem ver o mundo à sua volta. 

Quarenta anos depois, o que falta?

Tenho ainda um grande caminho a percorrer. Há ainda muitas aldeias sem eletricidade... 

Fala-se muito da crise. O que devemos fazer?

Pensar fora da caixa, procurar soluções opostas, deixar de ser fundamentalistas. Por este caminho, será o desastre. Temos de ajudar mais, mas de forma descentralizada, simples, sem consultores. 

O que diria a alguém que quisesse seguir-lhe as pisadas?

Perguntava apenas se tem a coragem e a resistência para não desistir. E, força! Gandhi disse: "Vive de forma simples para que os outros possam viver simplesmente." Mas nós complicamos. Se alguém se quer encontrar, o melhor que tem a fazer é dedicar-se a ajudar os outros. 

Alguma vez teve medo de que a sua iniciativa não resultasse?

Tive sempre medo. Quando conheço alguém bem-sucedido, pergunto-me sempre quantas vezes falhou. Porque falha-se muito. Faz parte. E depois tenta-se outra vez. 

E a sua mãe, já lhe perdoou?

As pessoas não gostam de fazer escolhas que não sejam aceites pela família, o que é também culpa do sistema educativo: é ele que está a tornar as pessoas cobardes. Somos levados a querer sempre mais mas, depois, quanto mais alto subimos, menos erros podemos cometer e paralisamos com medo. Como é que se pode errar, se, depois, todos vão pensar que somos uns falhados? Então já nem se tenta. E, sim, claro que a minha mãe acabou por compreender.