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É a felicidade, imbecil!

Marta Vaz

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Está a chegar o Dia Internacional da Felicidade. Ai que medo!

As minhas lentes sobre o mundo são, por natureza, optimistas e, por recomendação médica, a graduação é realista progressiva. Ainda não emigrei, estou aqui de pedra e cal mas, é evidente, isto não está para cantorias tipo "como está senhor Contente, como passa senhor Feliz, diga cá à nossa gente como vai o seu país...". Isto está mais para constatações do género como vai senhor Deprimido, como está senhor Desempregado, diga à gente, diga à gente, qual o estado do nosso Estado. Ou então, para desanuviar, debrucemo-nos sobre "As grandes questões do nosso tempo", com os  "Gato Fedorento" e questionemo-nos sobre qual o caminho para a felicidade, e rapidamente concluímos que "o caminho está cheio de pedras e a culpa é do Governo"! Valha-nos o humor!

A busca da felicidade, como sabemos, não é terreno fértil só para humoristas, filósofos, teólogos e outros literatos. Mais do que nunca, creio, é matéria para economistas e políticos se debruçarem com seriedade e empenho e traçarem novos rumos para a humanidade. Proponho mesmo que se troque a expressão "é a economia, estúpido!" por "é a felicidade, imbecil!", como forma de priorizar e tornar urgente a sua importância colectiva. Sim, que se crie um  novo movimento, uma campanha em nome da felicidade dos países. Não falo da felicidade de cada um de nós. Porque a felicidade, neste aspecto, é como a memória. Há a individual e a colectiva. E esta última, por ser pelo bem-estar comunitário, é preciso colocá-la na agenda política, nomeadamente na nacional: contribuir para fazer dos portugueses cidadãos mais felizes!

Já repararam que andam por aí muitos seminários, conferências, congressos e afins sobre felicidade. Fala-se de uma economia da felicidade, da diferença entre o que significa desenvolvimento e crescimento dos países. Fala-se da elevação do hedonismo à categoria de ciência, fala-se, inclusivamente, do Índice Planeta Feliz e da felicidade interna bruta e da necessidade de traçar um rumo para as políticas públicas tendo por bússola essa nova medida de progresso.

Todos já ouvimos falar do Butão, nos Himalaias, que em 1971 rejeitou o PIB (produto interno bruto) para adotar o FIB (felicidade interna bruta) como forma de medir o seu progresso, inspirando alguns... E o que mede o FIB? Mede o desenvolvimento integral do país tendo em conta as seguintes dimensões: o padrão de vida económica, a boa governança, a educação de qualidade, a boa saúde, a vitalidade comunitária, a proteção ambiental, o acesso à cultura, a gestão equilibrada do tempo e, ainda, o bem-estar psicológico. Pois bem! Coragem! À luz da actual conjuntura europeia e nacional, é preciso coragem para pensar nisto.

Para a semana está aí o Dia Internacional da Felicidade (ai que medo!), novinho em folha, aprovado apenas o ano passado por resolução da assembleia-geral das Nações Unidas, que o instituiu e mandou assinalar a 20 de Março. Bem sei que pouco mais é do que uma forma de nos obrigar a reflectir sobre o tema. Claro que não era preciso a assembleia-geral da ONU sublinhar que "a procura da felicidade é um dos objectivos fundamentais do ser humano" para desatarmos todos a  fazer alguma coisa pela felicidade, como se não houvesse amanhã. Mas se a ONU entendeu  dedicar-lhe um dos cento e muitos dias que elegeu para o seu calendário é porque é preciso atenção, é porque é necessário cuidar.  Cuidar de ser feliz! E se formos no trilho individual isso dá que pensar, se passarmos para o trilho colectivo, também! Não há como escapar. 

Cuidar de ser feliz numa nova era, numa era de muitíssimas mudanças. Ser feliz no antropoceno e contribuir para que a influência humana no funcionamento do planeta seja o menos nociva possível. Sim, porque nas contas desta felicidade planetária de agora não se contabiliza apenas o cuidado com o meu quintal. Cabe, aqui, o quintal do meu vizinho e de todos os vizinhos distantes a quem nunca saberei o nome. Os quintais do mundo inteiro que nunca verei mas que vou querer tão asseados e cuidados como o meu.  

E é esse o equilíbrio que se preconiza se espelha num paradigma económico que nos leva ao desenvolvimento sustentável. O social, o económico e o bem-estar ambiental são indivisíveis e juntos, defendeu Ban Ki-Monn, definem a felicidade bruta global. Mas enquanto a felicidade não se generaliza como princípio e guia para as políticas públicas, por exemplo, tratemos de contribuir para esse bem-estar universal. Comecemos pelo nosso país, por nós. De facto o PIB não mede o que faz a vida valer a pena! Cuidemos de ser felizes  num tempo em que a felicidade ainda não foi condensada em pílulas de doses rigorosas de endorfina, dopamina, oxitocina e serotonina para fazer sorrir robots. Cuidar de ser feliz hoje, por ter ganas de o ser. E mais nada.