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'A minha dor maior é nunca ter sido filha'

Marta Vaz

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Foi mesmo há muito tempo, por esta altura, numa esplanada, ao fim de tarde, na Rua de Santa Catariana. É uma memória recorrente, nítida como um rosto, muito perto, à nossa frente

Encontrámo-nos por acaso, parámos a tomar um café e falámos da vida; da vida ligeira, do quotidiano corriqueiro e pouco mais. Uma conversa solta, ritmada, com alguns sorrisos, aqui e ali. E de repente: conta-me a tua dor, Marta? O que é que te dói? E eu achei que a multidão que passeava em Santa Catarina parou para nos ouvir.

Até que eu articulasse uma resposta, passaram séculos, desde aquele breve momento inesperado. E a conversa tornou-se longa e vagarosa, como as conversas que nos trazem amigos para a vida.

O que nos dói é assunto delicado e sério e não uma pergunta permitida a qualquer um. Tal como não se dá a resposta a qualquer pessoa. O que quero dizer é que é preciso legitimidade para fazer perguntas deste calibre. Eu, pelo menos, não responderia a uma pessoa qualquer, obviamente. Há dores e dores, momentos na vida em que nos dói tudo e quando nos dói tudo é porque não sabemos o que nos dói mais. É porque não conseguimos isolar o motivo da dor maior. Ou não conseguimos ou não nos apetece. Ou nunca ninguém nos perguntou ou nunca respondemos a ninguém.

Sabes qual é a minha dor maior? Disse que não, não podia saber. E dispus-me a ouvir, já que nada tinha perguntado a esse respeito. Da janela avista-se uma esplanada, ao fim de tarde, e, num breve regresso ao passado, nítido como um rosto muito perto, à nossa frente, recordei a pergunta que me fizeram quando teria a mesma idade daquela tão jovem mulher.

"A minha dor maior é nunca ter sido filha. Eu não sei o que é ser filha, sempre fui mãe dos meus pais e isso dói-me bastante. Acho que me vai doer toda a vida. Acho que deve ser muito difícil para os outros compreender esta dor porque, felizmente, a maior parte dos filhos é tratada como tal. Não estou a falar de tratar bem ou mal um filho, no sentido de lhe dar mais ou menos carinho ou coisas. Não! Nunca ter sido filha é como não nos deixarem viver com o corpo e com a alma que temos, entendes?

Não se trata de não poder ser filho porque se ficou órfão ou porque se foi abandonado; trata-se de ter pais e de eles passarem para nós as suas responsabilidades, invertendo papeis. Perder noites de sono por não saber onde estão os pais, com quem estão, o que estão a fazer, não são preocupações para os filhos. Viver preocupado com as contas da alimentação, da casa, da água, da luz não é ser filho. Isso não é vida para crianças de sete, oito, nove, dez anos e por aí fora. Entendes? Nunca, até hoje, me foi permitido ser filha e isso significa que nunca mais poderei ser. É algo que não se recupera.

A mim, nos dias em que me dói mais, parece-me a maior tragédia. Noutros dias de sol, como o de hoje, parece-me uma coisa triste como outra coisa qualquer. Mas é bom falar disto, quando nos apetece falar, com quem nos apetece falar.

Talvez aches estranha a dor de nunca ter sido filha ou filho, talvez nunca mais te lembres que esta dor existe no catálogo das dores. E não tem remédio. Porque, se um dia alguém cuidar de mim, nunca será com os cuidados que os bons pais prestam aos filhos. Entendes?

Se um dia for mãe, gostava que o meu filho soubesse que, antes de o ter, eu já sonhava em o deixar ser filho.

E será um filho muito feliz, podes escrever." Fica escrito. 

PS. Esta crónica é dedicada à jovem mulher de 24 anos que numa tarde de sol partilhou comigo a sua dor maior. Estou-lhe grata por isso.