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Compromisso de Salvação Nacional

José António Pinto

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Parece que o Sr. Presidente da República deu sinais de vida. Acordou, falou ao País

A crise económica nunca o incomodou. O Sr. Presidente sabe que, apesar da conjuntura internacional atual ser adversa aos negócios, os grupos económicos continuam a faturar e o obter bons resultados com a sua atividade. As grandes empresas beneficiam em Portugal de generosos perdões fiscais, legislação laboral amiga da exploração da mão de obra, e podem até transferir a sua sede para países estrangeiros e assim fugir ao fisco - sem a condenação de Cavaco Silva.

A crise social também não perturba o Sr. Presidente. Os pobres não são, na sua esmagadora maioria, politizados, não estão organizados em estruturas de reivindicação, não constituem grupo de pressão, não têm grande formação ideológica, têm pouca consciência política, não estão ativamente a participar nos partidos nem nos movimentos sociais de protesto. O risco de explosão social só existe devido aos novos pobres e aqueles que vertiginosamente estão a caminho do empobrecimento, nomeadamente quadros técnicos dispensados da função pública.

A crise política, essa sim, preocupa muito o chefe de Estado. A intriga politiqueira, a falta de lealdade, as zangas e os ciúmes entre os membros da coligação governamental tiram o sono ao Sr. Presidente da República, que exige entendimento entre o PSD, CDS e o PS para garantirem estabilidade política para Portugal.

O chamado compromisso de salvação nacional é para salvar os portugueses do desemprego, da pobreza e da fome? Não, este compromisso político é para salvar os bancos das suas perdas na bolsa, Cavaco Silva exige que este executivo continue em funções, mesmo sabendo que Pedro Passos Coelho, em dois anos de governação, já destruiu mais de 450 mil postos de trabalho.

O Sr. Presidente da República quer pôr fim às birras entre Pedro Passos Coelho e Paulo Portas para baixar as taxas de juro do nosso empréstimo ao estrangeiro? Não, Cavaco Silva quer que este governo continue no poder para, com o seu apoio, nada da agenda liberal fique por concretizar. É preciso, sob a capa de um acordo de regime, cortar 4,7 mil milhões de euros no funcionamento do Estado. É preciso continuar a despedir funcionários públicos, aumentar a idade da reforma, cortar direitos laborais, privatizar os correios, destruir o serviço nacional de saúde.

O desmoronamento político do governo não pode por em causa as exigências da troika nem as condições de cumprimento com os credores externos. Portugal tem de demonstrar ao mundo que, mesmo com outros protagonistas, quer pagar uma dívida impagável. O Sr. Presidente da República está empenhadíssimo na construção deste consenso patriótico para pôr fim às políticas de austeridade? Não, o chefe supremo da nação sabe que a austeridade tem agravado muito as condições de vida da esmagadora maioria dos portugueses mas, ainda assim, é defensor da sua continuidade.

Com este senhor em Belém, o discurso do medo e da chantagem vai continuar.

Aceitem o que eu digo, obedeçam às minhas recomendações. Se Pedro Passos Coelho for corrido do governo será o caos, a bancarrota, o segundo resgate, o desperdiçar de todos os sacrifícios , o caminho da ingovernabilidade da Grécia, a impossibilidade de Portugal não regressar tão cedo aos mercados.

Foi esta lengalenga que nos enganou. E, afinal, de nada valeram os sacrifícios dos que menos têm - foi o próprio ministro Vítor Gaspar que reconheceu o falhanço da política que estava a protagonizar.

Portugal está hoje mais pobre, mais endividado e dependente do estrangeiro. Com este presidente da República, a tomar descaradamente opção por esta corrente ideológica, os tecnocratas sem preparação, sem experiência, sem maturidade e sem sentido de Estado vão continuar a fingir que tomam decisões políticas. Mas quem manda são os mercados, o grande capital, a elite económica que quer pôr a democracia refém dos seus interesses.

Não vamos desistir de lutar para conquistar outra vida e outra esperança. Quem tem medo das eleições tem medo do povo, quem tem medo do povo não merece ser seu legítimo representante.