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A corda vai rebentar

José António Pinto

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Quantas horas são precisas para obter uma informação ou um documento no serviço da segurança social, na loja do cidadão no Porto? Seis horas, quando corre bem. Tenho utentes que entram no edifício às 8 horas da manhã e saem de lá com o papel na mão depois das 4 da tarde, sem almoço no estômago 

Com que recursos económicos vais sobreviver se o teu subsídio social de desemprego acabou em Outubro de 2012 e se, até ao momento, ainda aguardas que o rendimento social de inserção, no valor de 238 euros, chegue à tua caixa de correio?

Tentas falar com a assistente social da tua área de residência mas como ela gere mais de 380 processos, só pode falar contigo daqui a 3 meses. O teu frigorífico já está vazio, os teus filhos já não têm passe dos STCP para viajar até à escola, as cartas da EDP, das águas e do gás, ameaçam com o corte de fornecimento ao teu domicílio. Hoje o carteiro trouxe um aviso postal. É uma carta registada da Câmara Municipal do Porto. A tua ordem de despejo tem de ser contestada e tu não entendes, nem sabes, como o vais fazer.

Pedes apoio judiciário à segurança social, não te respondem, vais ao serviço informativo saber desta apreciação, dizem-te que o processo foi mal instruído.

A santa Casa da Misericórdia anuncia mais um serviço de apoio e de emergência social. Dão-te um saco de alimentos por mês. A cantina social da coletividade do teu bairro já tem lista de espera. A tua vergonha e humilhação perante os vizinhos, amigos e familiares aperta-te a garganta e não te deixa engolir nem mastigar nada.

O teu vizinho já foi pedir ajuda à paróquia. A paróquia não tem verba suficiente para pagar os óculos que o teu filho precisa de comprar para ler o que a professora escreve no quadro da escola. O senhor padre liga para a Junta de Freguesia, a Junta já gastou este mês toda a verba destinada à ação social. Sobram uns medicamentos com um nome estranho, o seu prazo de validade já terminou.

As filas à porta do centro de emprego aumentam, cresce o desespero e a descrença. Cresce o número de arrumadores de carros, os lugares de exibição da prostituição na cidade, cresce o número de homens, mulheres e crianças que recolhem tudo o que é sucata, cresce o número de prédios hipotecados, as lojas fechadas, os negócios falidos, cresce o número de assaltos perigosos.

Agora tens de provar aos serviços da segurança social que és pobre. Organiza todos os papéis que te pedem, respeita os prazos que te são exigidos, trata de tudo através do computador. Tu não tens computador, não sabes lidar com essas máquinas, então és um inadaptado. O sistema lamenta mas vais ficar de fora da mísera proteção por uns tempos.

Brevemente, a assistente social vai querer visitar a tua casa. Vai fazer recomendações e exigências, vai-te ameaçar, vai-te vigiar, vai-te prometer uma pequena esmola para atenuar a tua revolta estéril. Na semana seguinte, és confrontado com novos cortes. O dinheiro que o Estado tinha reservado para matar a fome aos teus filhos vai ser canalizado para a recapitalização dos Bancos. Agora as regras são mais apertadas, os apoios económicos do Estado vão durar menos tempo, menos pessoas vão ter acesso a eles, o seu valor mensal será cada vez mais reduzido.

O teu cunhado mostra-te uma carta que a técnica de emprego lhe deu. Fala de um programa chamado "contrato emprego inserção". Não te permite fazer descontos para a segurança social, não tens direito a qualquer tipo de proteção quando ficares doente ou desempregado, trazes para casa 400 euros, trabalhas mais de 9 horas por dia, apanhas o autocarro das 6 horas da manhã, mudas de linha três vezes até chegares ao emprego, na carruagem do metro antes da paragem do bairro do Viso ouves na rádio uma canção antiga de Sérgio Godinho que diz "que força é essa amigo, que te põe de bem com os outros e de mal contigo?" Quando regressas a casa estás exausto. O dinheiro que trazes ao fim do mês não chega para pagar as contas mais rudimentares. Estás mais velho e triste. Estás a trabalhar mas, infelizmente, cada dia que passa ficas mais pobre.