Visão Solidária

Siga-nos nas redes

Perfil

Os Estados flagelam e crucificam o pobre, indefeso e inocente trabalhador...

Henrique Pinto

  • 333

Organizações portuguesas, entre elas a CAIS, que fazem parte de uma Confederação de Organizações Europeias que trabalham com pessoas sem-abrigo (FEANTSA) reuniram-se em Lisboa para partilhar o que acontece no terreno

A população sem-abrigo em Portugal continua a ser aquela de há uns 10 ou 15 anos. Por vezes, tem-se até a sensação de ter diminuído nalgumas localidades. Não se conhecem muito bem as razões, mas a redução dos apoios por parte do Estado Português, contrários, certamente, ao compromisso assumido no Programa Nacional de Reformas, também obriga os mais pobres a procurarem outros portos onde se refazerem ou a esconderem-se.

O encontro deu-se sobretudo conta de como a classe média baixa, sem emprego, sem casa, aqueles que hoje integram o grupo de 1,2 milhão de desempregados do país, poderão resvalar para o grupo de sem-abrigo, se lhes vier a faltar o apoio de familiares e amigos. Se nada se fizer pelas famílias através do apoio à habitação, à criação de emprego e desenvolvimento da economia, daqui a 5 ou 10 anos a população sem-abrigo em Portugal poderá disparar para níveis nunca dantes vistos.

Se eles aguentam, eles, os sem-abrigo, como alguém os usava recentemente como comparação, por que não outros, outros sujeitos a uma flagelação e crucificação nacional e europeia por pecados que não cometeram!?!

Solto, Barrabás continua impune, e o pobre trabalhador, aquele que, como ontem, trabalha de sol a sol, vê-se severamente acorrentado, explorado, maltratado, humilhado. Por isso, a questão não está no saber-se até que ponto o ser humano é capaz de aguentar as mais severas adversidades, mas se o que se deseja para os portugueses e os que aqui residem, é o desemprego, a pobreza, a fome, a rua, a psiquiatria, e por fim a morte.

No Ano Europeu dos Cidadãos, estes são os males que mantém num estado de não-cidadania milhares de pessoas e empurram para dentro de si milhares de outras. Os sem-abrigo aguentam quando não deviam, e por isso nenhuma pessoa deve obrigar-se a fazer parte de um grupo onde o que ainda resta à dignidade humana é a verticalidade e verdade de quem é ou está gravemente pobre.

Por isso, também daqui nos insurgimos contra o governo Húngaro que se prepara para colocar na sua Constituição que pessoas sem-abrigo a viver na rua, são criminosos. No decorrer de 2012, o governo da Hungria tentou multar e prender todo o que, no período de seis meses, tivesse dormido na rua duas vezes seguidas. Considerada uma lei inconstitucional, o governo tenta agora alterar a Constituição. A subserviência imoral da política à economia neo-liberal, sem qualquer tipo de escrúpulos, não só gera pobreza como depois a criminaliza.

Concluo, retomando o que há muito pouco tempo escrevia na minha página de Facebook sobre a resignação de Bento XVI, em oposição ao pontificado triunfalista, omnipresente, e por isso centralizador, de João Paulo II. Também a Igreja Católica sofre dos mesmos escândalos que desde sempre permearam o governo político de todos os povos. Sexo, poder e dinheiro, entre outros, nunca foram, nem nunca serão estranhos no Vaticano ou fora dele.

Nunca percebi muito bem a aversão de alguns ao que se apelida de populismo, ao que frequentemente considero fazer parte da utopia pela qual ainda hoje muitos se constroem e regem. Não será certamente Beppe Grillo a solução dos problemas na Itália, mas há no discurso de homens frágeis e não-isentos como ele, sinais de uma loucura fundamental ao mundo contemporâneo, de uma loucura da terra, mas também do céu.

Num tempo de estranha, mas provavelmente necessária, confusão política e religiosa, só mesmo loucos, pessoas rasgadas e arrebatadas por uma loucura divina, poderão arrancar a humanidade da barbárie de que é capaz para a vestirem da sua verdadeira dignidade.