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O Diálogo é blasfemo!

Henrique Pinto

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Sobre o nosso ilusório e tranquilo bem-estar interreligioso

O diálogo, como único caminho possível, garante de uma mais genuína e real sustentabilidade, advém da condição humana e está a ela ligado. O ser humano é uma realidade em infinitos contextos. É gratuita (sem razão). Não é causa de si, auto-suficiente, mas dependente e interdependente. Precisa dos outros. É finita, marcada pela fragilidade, pela angústia face à morte e à possibilidade do "nada". E ao contrário do que alguém possa pensar, a história do ser humano não é linear, evolutiva, ininterrupta, mas descontínua, e por isso, surpreendente. O ontem não é nem melhor nem pior do que o hoje, e assim o que, no presente, se pode afigurar como futuro. E a verdade ou as verdades de um tempo ou de um dia ligam-se a infinitas lutas de poder, onde vencedores e vencidos nunca tiveram qualquer relação com uma isenta (não contaminada) defesa e promoção do "Bem".     

Por isso, no rescaldo de mais uma tertúlia sobre o diálogo interreligioso, decorrido recentemente na Mesquita de Lisboa, não me parece que seja legítimo que alguém defenda ser "salvação" e "caminho" que a ela conduz, precisamente porque deixámos de poder apelar a fundamentos vazios de finitude, de contextos, de história, de espaço e tempo - no fundo, deixámos de ter como referência antropologias ou transcendências ahistóricas e atemporais.

Também não me parece que este encontro tenha de passar pela criação de templos que congreguem múltiplas fés, ateus, agnósticos e tantas outras fictícias visões sobre o mundo. Existindo, "Deus" (o "divino") não resultará dos sucessivos encontros sincréticos entre diferenças e o que possa haver de comum entre diversos grupos, muito menos da criação de espaços físicos que se adequem a todos. Já houve quem o defendesse e por isso o sublinho, concordando: o corpo humano, com a toda a natureza à sua volta, é o mais apropriado e sagrado lugar de encontro da humanidade consigo mesma e com tudo que possa existir à sua volta.

 

Por outro lado, também não entendo que o diálogo tenha de nos empurrar para uma dimensão trans-religiosa, pois esta nunca será nem mais pura nem mais isenta que outras, tornando-se também, mais tarde ou mais cedo, um patamar problemático, dogmático, como qualquer tradição religiosa. O esvaziamento (self-emptying), que retenho fundamental à relação dialógica entre as múltiplas diferenças que compõem as variadíssimas experiências do sagrado, do divino, do espiritual, tem por função única a nossa pessoal e coletiva transformação, para lá de qualquer nível de "iluminação", "redenção", ou estádio avançado (de um hipotético "processo de evolução") de uma vivência ou não da fé.

O diálogo exige que cada um se liberte de si, dos outros, do radical "outro", e que este, entendido como "Divino", se liberte de tudo o que o vai encarcerando, aqui e agora. Neste processo, o singular procura e gera comunhão pela cooperação, mas não se detém aí, pois a interdependência do existir humano faz com que a comunhão volte a gerar singularidade, só que desta vez, uma singularidade transformada, diferente da anterior, a qual conduz nova e sucessivamente à comunhão e a comunhão à singularidade e pluralidade. O diálogo não mata o indivíduo, privilegiando o coletivo, mas também não aniquila o coletivo, privilegiando o indivíduo. O diálogo é um processo de esvaziamento transformador de quem nele fizer parte.

Há quem aponte como exemplar a relação de paz que as diversas confissões religiosas vivem em Portugal, mas não me parece que a paz tenha a ver com amizades de superfície e circunstância, ou com os apertos de mão e palmadinhas nas costas decorrentes de alguma liturgia conjunta ou de uma organizada troca de ideias descomprometida, indiferente, condescendente e tolerante. A Paz que é verdadeiramente paz é a que resulta sempre de uma relação conflituosa (não violenta) entre a pluralidade das vozes que compõem o tecido social de uma nação e participa activamente no governo individual e coletivo da mesma. Em Portugal, as minorias ainda se vivem muito voltadas para dentro, numa afirmação e defesa da sua própria identidade e a confissão religiosa predominante é doentiamente indiferente a quase tudo, também porque nunca viu o seu poder e estatuto socioeconómico realmente ameaçados. Por isso, outros países, onde por vezes a paz parece não existir, vivem "melhor" saúde do que o nosso ilusório e tranquilo bem-estar interreligioso.

Dentro e fora de nó, um fantástico mundo a transformar, um mundo que, não o sendo, deve ser casa, templo de todos e sustento de todos. E é fundamental que se diga que esta transformação não passa por mais produção, mais consumo, mais competitividade, mais marketing... antes pelo contrário: ela exige uma nova oikonomia, uma nova manutenção do nosso corpo, da nossa casa, do nosso País.

O diálogo interreligioso joga-se no espaço público, e esse deve ser entendido como cooperação desarmada, vulnerável, esvaziada de egocentrismos, num tributo indiscutível à dignidade do outro, que não nega, nem afirma um outro absoluto, mas que se abre à sua (im)possibilidade. Por isso, ele nega qualquer ética, qualquer moral universal ou fórmulas sobre o que alguém possa ter por bem ou mal. O diálogo é blasfemo e deve continuar a sê-lo, numa contínua desconstrução de qualquer tipo de idolatria antropológica ou transcendental. 

A felicidade (sem saber dela) precisará certamente de muito pouco. E o que parece ser-lhe essencial não são as virtualidades informáticas de um mundo global, mas relações físicas, corpóreas com os outros, o "outro", a natureza, os animais, as plantas, sobre os quais não se deve, em tempo algum, exercer domínio, muito menos ordenar ou realizar o seu extermínio.