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Ser ou ter?

Fernando Nobre

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 Em plena época natalícia e a escassas semanas de terminar o ano, gostaria de repensar este desafio: Ser ou Ter?

 

Desafio gratuito? Debate e opção fúteis e inúteis? Escolha impossível? Penso que não. Será um desafio gratificante, julgo eu, se a opção "ser", a acertada para mim, for a escolhida; não é seguramente a mais fácil mas será aquela que, nos momentos derradeiros, mais nos realizará e nos reconfortará!

Acredito plenamente que o "ser" tem que se sobrepor ao "ter". Sei que não é o sentimento dominante neste século, preocupado com uma globalização essencialmente financeira e especulativa, pelo vírus da ganância alojado na mente de certos "yuppis" e de certas "empresas", por uma tecnologia que parece tudo explicar e dominar e por uma visão maniqueísta das relações humanas que pretende conduzir-nos para perigosos desvios militaristas, assim como para um choque de civilizações e religiões obsoleto, porque retrógrado, sem cabimento e sem esperança, causador de tanto sofrimento e morte.

O terrorismo e o combate que lhe está a ser travado são epifenómenos que decorrem das contradições e efeitos negativos quando o "ter", irrefletidamente, tem a pretensão e ousadia de se sobrepor ao "ser".

A guerra contra o terrorismo está enferma de inutilidade e morte porque manifestamente desadequada e incompleta: apenas feita de tiros, torturas, prisões arbitrárias e cárceres fora das normas jurídicas, humilhações e mortes, não nos levará a parte nenhuma a não ser a mais terror: será uma espiral infernal para todos, mesmo para aqueles, os do "ter", que pensam ter-se posto ao abrigo nos condomínios fechados e outras torres de marfim...

Meus amigos, há uns anos ouvi, no Centro de Convenções de Washington, o então presidente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento da Europa, Sr. Jean Roger Bovin, fazer uma análise da situação mundial que me reconfortou ainda mais na minha opção de pretender apenas "ser" e de lutar nesse sentido. Disse então o Sr. Bovin que "a pobreza impede o desenvolvimento social e o progresso", "que o crescimento económico não conduz obrigatoriamente ao desenvolvimento social" e que "o desenvolvimento social não é alcançado sem um investimento sério na saúde e na educação". Afirmou também que "a democracia e a miséria não podem coexistir" e que, por isso, "é fundamental investir no desenvolvimento social para se almejar ter democracia". E alertou para o facto da "Nova Ordem Mundial", sonhada pelo presidente George Bush (pai!), ter falido e se assistir a um aumento acelerado das disparidades! E mais, alertou também que previa para 2020 (amanhã!) que a África iria pôr no mercado de trabalho duas vezes mais jovens do que a Europa, EUA, Japão e Rússia, juntos, o que provocaria uma corrente migratória Sul/Norte nunca vista... Sábias observações e temíveis previsões... Pois é, eis o resultado que a aposta no "ter", estéril, produziu no nosso planeta: um crescimento económico sem desenvolvimento social integrado e global.

O "ter" é ilusão, é pura aparência, é efemeridade, é indiferença, é intolerância, é enfermidade, é solidão. O "ter" não tem esperança porque se esgota nele próprio, alimenta-se dele próprio exigindo sempre mais "ter"! Que saída para essa quadratura do círculo, para esse não senso que alguns tentam erguer em novo paradigma, querendo fazer-nos crer que é a única via para a resolução dos problemas da humanidade? Só há uma: inversão de marcha em direção ao "ser". Não é fácil, espera-nos muita frustração (tanto maior quanto menos "ser" houver...) e alguma satisfação, sobretudo aquela de sabermos que, no mais íntimo do nosso ser, estamos no caminho certo, na única via para a criação da Paz e da Harmonia entre os seres humanos.

"Ser" é humanidade, consciência social, livre arbítrio, liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade, cultura, preocupação ambiental, ecumenismo, tolerância, aceitação e preocupação do outro... Este é o meu pensamento, a minha opção, o testamento de um cirurgião que muitas vezes teve vidas entre as mãos, de um operacional que percorreu o Mundo e de um homem que sabe perfeitamente como é a morte e que gostaria de a enfrentar olhos nos olhos com o mínimo de angústia e medo. Só e apenas isso. Tentar "ser".

E se tentássemos todos?

Deixo-vos este desafio e aproveito para vos desejar, caros Amigos, um Feliz Natal e um 2014 determinado e tenaz pela construção de um Mundo mais justo e harmonioso, em que o "Ter" possa dar lugar ao "Ser".