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Níger: Um país agrilhoado por uma demografia galopante

Fernando Nobre

 Visitei este ano, pela primeira vez, o Níger, no âmbito de uma missão exploratória da AMI, e admito que fiquei impressionado, apesar de tudo o que já presenciei ao longo destes 35 anos de trabalho humanitário

 

O Níger é um país extremamente pobre com 63% da população a viver abaixo do limiar da pobreza, onde a escravatura é uma realidade, não sob a forma de escravos agrilhoados, mas sob a forma de pessoas privadas da posse de terra que, mesmo que consigam obter a liberdade, enfrentam a discriminação e, consequentemente, grandes dificuldades em encontrar emprego e sobreviver, acabando, muitas vezes, por ser recrutados por grupos islâmicos fundamentalistas. É também um país com um crescimento demográfico galopante, prevendo-se que a população possa duplicar nos próximos 18 anos, inseguro (em 2013, registaram-se ataques terroristas em 3 cidades do país - Arlit, Agadez e Niamey) e é uma das rotas preferenciais das migrações para a Europa, um tema extremamente sensível nos dias de hoje. Tema esse que originou o levantamento de muros e vedações, apesar de assistirmos a uma inversão demográfica numa Europa envelhecida, sem verdadeiras e eficazes políticas demográficas.

Assim, o Níger é, não só mais um país de África com problemas, mas também, um país que enfrenta graves dificuldades, com repercussões sérias e bem diretas na Europa.

A acrescer ao envelhecimento da Europa, existe a certeza do movimento migratório tomar uma amplitude muito maior, com os milhões de refugiados e deslocados no Mundo e com o agravamento das alterações climáticas.

A fome e as deslocações em massa das populações, inultrapassáveis a meu ver, serão os fatais detonadores para as deflagrações sociais que os governos impotentes, quais bombeiros sem meios face a incêndios devastadores empurrados por ventos fortes, não terão os meios para controlar. São verdadeiras ameaças ao desenvolvimento dos países, pelo que é imperativo criar, desde já, as condições necessárias (educacionais, legislativas, sociais, urbanísticas...) para mitigar as consequências desses dois grandes desafios.

Como ajudar, por isso, um país com o maior índice de crescimento demográfico do mundo (3,9% por ano), no qual todos os anos, entram 500.000 crianças para o ensino primário, em que a escravatura é realidade, embora proibida na Constituição, e que ocupava o 186º lugar no

Índice de Desenvolvimento Humano de 2013? Costumo dizer que não há "obstáculo inultrapassável, montanha inacessível nem fortaleza inexpugnável", mas estes fatores tornam a definição de uma intervenção humanitária eficaz, muito difícil...