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Ligar-se aos Outros: passar das palavras aos atos!

Fernando Nobre

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Há coisas a acontecer em Portugal, neste país tão deprimido, tão pressionado e tão castigado, de que ninguém fala. Coisas boas, que dão esperança e que mostram a capacidade que temos de estar disponíveis para os outros

Dentro da sociedade há sinergias fortes e potentes que raramente são aproveitadas. Mesmo quando tudo parece obstruir esse caminho e quando as circunstâncias poderiam ditar o oposto, há grandes exemplos que facilmente entusiasmariam outros ao seu redor, se fossem mais conhecidos, mais facilitados e, principalmente, mais valorizados.

Numa escola da Lousã, conheci um conjunto de jovens que, depois das aulas, se juntam, se organizam e se coordenam, saindo da escola a caminho de uma casa. Não da sua casa, mas da casa de um idoso, que vive só, que lhes foi apresentado e a quem eles dedicam algumas horas do seu dia. Às vezes conversam. Às vezes penteiam-no. Às vezes dão-lhe a mão. Outras vezes vão com ele ao café e jogam cartas ou lêem-lhe o jornal. Fazem-no porque querem e porque acham que é importante. Só por isso. A isto se chama solidariedade intergeracional concreta e exemplar, que urge multiplicar.

Em Sines, um outro grupo de jovens decidiu reabilitar um internato para rapazes. Envolveram-se tanto, que os próprios jovens que lá habitam, até então relativamente acomodados, se entusiasmaram e participaram, com todo o vigor, na reabilitação da estrutura que, afinal, é a sua casa.

Há também jovens no Mindelo a recuperar a casa de uma família que não tinha água quente para o banho. Ninguém lhes pediu nada.

Eis três formas de fraternidade que a Fundação AMI apoia no âmbito do projeto "Liga-te aos Outros", lançado em 2011.

Há exemplos destes um pouco por todo o país. São projetos de jovens em formação, que estão recetivos a uma aprendizagem prática, de terreno. São pessoas em crescimento, que estão alerta, possuem um elevado grau de consciência social e são criativas, uma vez que não só identificam os problemas, como conseguem arquitetar uma possível solução e a põem em prática. São jovens ligados à comunidade, atentos e interventivos, que revelam uma cidadania ativa, participativa e responsável!

Que valor damos, no nosso sistema educativo, a estas características? Entre uma boa nota num teste, ou um bom projeto deste género, o que preferimos nós pais, nós professores, nós profissionais? Como poderemos exigir uma cultura de valores, baseada na ética, na transparência e também, porque não dizer, na cooperação e na entreajuda, se valorizamos tão pouco ações como estas e outras tantas que há e nem sequer fomentamos?

A verdade é esta: uma mente brilhante, sem sensibilidade, sem sentido de ética e sem contacto com o mundo real de muito pouco servirá à sociedade. A formação na vertente social e cívica é, salvo raras e honrosas exceções, descurada e descuidada. E isto é um erro crasso para o futuro de todos nós. A formação de um jovem não pode acontecer apenas dentro da escola ou dentro de casa. A aprendizagem na e com a comunidade é essencial. Representa um alerta precoce que deixa raízes fortes, profundas e frutíferas. Estimula a honra do compromisso pelo seu valor, e não pelo castigo do não cumprimento. Intensifica a capacidade de cada um se relacionar e entender o outro, na sua circunstância diferente. Potencia a tolerância e luta contra as assassinas indiferença e insensibilidade. É geradora de capacidades incalculáveis para a gestão de conflitos e contorno de obstáculos. E permite alicerçar tantas outras características que mais tarde, na vida, nos são úteis e nos tornam a pessoa diferente que os outros reconhecem e valorizam.

Empreendedorismo e liderança com visão, consciência e responsabilidade: é disso que Portugal, a Europa e o Mundo necessitam urgente e permanentemente. É, quanto a mim a chave para acabar com as "crises" que nos amedrontam. Façamo-lo, ligando-nos efetivamente aos outros, passando das palavras à reflexão e ação.