Visão Solidária

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Ética e Solidariedade ativas precisam-se!

Fernando Nobre

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Após terem sido alvo da ação predadora e estranguladora dos "assassinos económicos" nas últimas décadas do século passado e na primeira década do século XXI, os povos vêem-se agora asfixiados pelas dívidas e pelos juros da dívida decorrentes desse período, mas também, o que é grave, perante a impossibilidade de qualquer hipótese de escoamento dos seus produtos

Essa política cega e insensível só pode desembocar em mais miséria, humilhação, ódio e emigração.

O peso da dívida é uma das causas da miséria dos Povos. Está tudo interligado: quanto mais penetramos no labirinto dos processos especulativos engendrados por mentes obcecadas pela efémera ganância e pseudo poder, privilegiando o ter e não o ser, mais nos aproximamos do Minotauro. Estamos, agora, precisamente perante ele: ou dominamos já o Monstro ou seremos trucidados. O fio de Ariana que nos poderá valer é ténue se é que não foi já rompido.

Em suma, a Pobreza e a Exclusão Social (irmãs siamesas) são os principais obstáculos da existência de um bom clima de Paz no Mundo. Incongruências dos tempos modernos: num Mundo que nunca produziu e acumulou tanta riqueza não é tolerável tamanha irracionalidade! A indiferença, a intolerância, a ganância e a falta de Amor continuam a ser as verdadeiras causas de guerras, desgovernação, desemprego, exclusão social e miséria.

Como problema global que é, o binómio pobreza-exclusão, portador de vergonha, humilhação e marginalização a mais de um terço da população mundial, retirando-lhe qualquer esperança, está no cerne de problemas globais tais como: a fome, a emigração, os sem-abrigo, os mercados de trabalho precário e da prostituição, a mortalidade e exploração infantis, o tráfico de sangue e órgãos, as crianças soldado, a mortalidade materna perinatal, o analfabetismo, a escravatura laboral florescente (real motivação de tantas deslocalizações de empresas gananciosas e sem ética social) e... a terrível insegurança. Que não haja dúvida: é no pântano da miséria, da exclusão e da humilhação (origem de revolta e ódio) que as organizações terroristas recrutam.

Eis o panorama inquietante que pode matar mais depressa do que pensamos, as nossas Democracias, Liberdades, Garantias e efémeras certezas! É a temível "Bomba Social", tão falada mas aparentemente tão desvalorizada e  cuja explosão só pode ser evitada com ética, solidariedade e com vontade política, acompanhadas de medidas e soluções alternativas simples. Para citar apenas uma: maior e melhor regulação e fiscalização do sistema financeiro por parte dos estados e de governantes globais responsáveis.

E um erro seria pensar que Portugal está imune a essa tragédia anunciada. Não nos iludamos. Pelo menos vinte por cento da nossa população vive na pobreza e os guetos de exclusão social existem! E vão aumentar...São factos indesmentíveis. Só quem não está atento ao país real, é que se deixa ludibriar. A pobreza e a exclusão são a nossa vergonha coletiva. Só nos resta combatê-la no nosso País e no Mundo. Com determinação, sem tibieza, com humanismo e compaixão para com todos os povos onde se incluem, evidentemente, todas as minorias étnicas e comunidades imigrantes, legais e ilegais que partilham no seu dia-a-dia os problemas, anseios e alegrias de todos nós. Portugal, como País de emigrantes que foi e continua a ser, deve encarar essa matéria como uma questão de dignidade nacional. Por cada imigrante, Portugal tem cinco emigrantes! Dá que pensar.

No Mundo e em Portugal é possível reduzir drasticamente a pobreza e a exclusão social. Esse objetivo será conseguido se fizermos dele uma Causa Global e Nacional. Tal exige vontade, meios, empenhamento e a união de todos: partidos políticos responsáveis, forças económicas cidadãs, sistema financeiro ético e regulado, sociedade civil esclarecida e organizada e cidadãos voluntários, ativos e solidários. Só mobilizados e motivados, em nome de um Mundo e de um Portugal sustentáveis, criando mais riqueza e não aceitando olhar para essa vergonha como uma fatalidade ou com qualquer espécie de atavismo, é que venceremos. Se não o fizermos, e já, estaremos a pôr em causa as já débeis Democracias e o nosso futuro coletivo!

Solidariedade ativa, informada e esclarecida é a chave do problema: A isto também se chama cidadania interventiva!