Visão Solidária

Siga-nos nas redes

Perfil

É urgente falar de Paz!

Fernando Nobre

 A poucos dias de se ter assinalado o dia mundial da População, a 11 de julho, urge falar de Paz

A Paz é e, aliás, sempre foi, a mais imperiosa e absoluta necessidade assim como o maior desejo e sonho da esmagadora maioria das pessoas. Sem Paz, o Mundo muito dificilmente poderá alcançar o Desenvolvimento e a Democracia durável para todos. Disso não tenho dúvida. Mas se assim é, como se explica que a História da nossa Humanidade possa ser representada, desde sempre (se excluirmos algumas épocas de relativa acalmia e bom senso), por um fresco dominado pelas cores da guerra, da morte, do sofrimento, da exploração, da humilhação e da dor infligidos por seres ditos humanos aos seus semelhantes?

Eis a pergunta dilacerante que me interpela diariamente há mais de três décadas. Como explicarmos tal desvario de comportamento, completamente absurdo e paradoxal? Devo confessar que, quanto mais percorro o Planeta Terra e penso no Universo que nos engloba e nos reduz à insignificância absoluta, mais perplexo fico e mais perdido me sinto ao confrontar-me com a História e sobretudo com a atualidade das guerras e holocaustos.

Quanto mais me interrogo, mais convicto fico que o absurdo e o horror com que me tenho confrontado nos quatro cantos do mundo se devem à Indiferença, à Intolerância e, hoje acrescento, à Ganância. A meu ver, são essas as doenças malignas que têm levado a nossa Humanidade aos conflitos incessantes, aos genocídios, à exploração, à humilhação, à despudorada (des)governação global e ao ódio, já de difícil remissão.

Essas doenças mortíferas têm corroído a consciência dos seres humanos e têm impedido o surgimento de um novo paradigma nas suas relações. Essas doenças parecem ter atingido a liderança global pois só assim encontro explicação para o desnorteamento total que impera ainda hoje na nossa Humanidade neste início do século XXI e nos mergulhou desde já num Mundo particularmente instável, violador e atentatório dos mais elementares direitos humanos, que parece querer conduzir-nos a um novo apocalipse.

Todos estamos perfeitamente conscientes, julgo eu, que, a menos que os cidadãos, a nível global, despertem da letargia profunda onde mergulharam, que lhes foi induzida, e exijam lideranças globais mais responsáveis, a espada de Dâmocles que está suspensa por um frágil fio cairá sobre todos nós. Estas doenças incendiárias (a Indiferença, a Intolerância e a Ganância), se não forem dominadas com o rápido surgimento de uma nova liderança mundial mais esclarecida, mais responsável, mais sensata e menos geradora de revolta, de humilhação, de injustiça, de exclusão e de ódio, levar-nos-ão a confrontos civilizacionais, religiosos e sociais de dimensões até hoje nunca vistos e imaginados.

Os incêndios ateados no Próximo e Médio Oriente, assim como no Norte de África e na Ucrânia, para já não falar dos efeitos irreversíveis das alterações climáticas em curso, são já, prenúncios altamente alarmantes.

Ao longo da minha caminhada como médico humanitário há mais de três décadas, tendo atuado em cerca de 80 países de todos os continentes, considero, e repito, que tais doenças (a Indiferença, a Intolerância e a Ganância) estão na base de todos os dramas humanos que vivenciei. São, quanto a mim, as causas das principais ameaças à Paz presente e futura.

Será que ainda existem esperanças e ações possíveis no sentido de reduzirmos, ou até mesmo anularmos essas atuais e prementes ameaças à Paz que tanto nos inquietam e amedrontam?

Será que já é irreversível o caminho de confronto que alguns propagandeiam e estimulam?

Eis-nos perante questões difíceis mas que exigem respostas clarificadoras. Há que encontrar novos caminhos e soluções de mudança para os velhos e novos desafios que enfrentamos. Se assim não for, receio muito que o século XXI acabe ainda bem pior do que começou.

Com franqueza, e em boa verdade confesso, temo que possa já ser tarde demais para atalharmos com eficácia as ameaças que nos rodeiam, pese embora alguns sinais e até respostas positivas estejam felizmente já lançados contra o tsunami devastador que nos quer submergir.

Mais do que nunca, é urgente falar de Paz, de cultura, de diálogo, de ecumenismo, de entendimento, de tolerância, de pontes entre os povos e de inclusão.