Visão Solidária

Siga-nos nas redes

Perfil

Até quando vamos fingir que não sabemos?

Fernando Nobre

Um dos grandes paradoxos da nossa época, que pretende ficar na História da Humanidade como sendo a época da Mundialização, é que muitos povos e as suas enfermidades continuam votados a um completo ostracismo e a um mortífero esquecimento

O mais recente exemplo é o surto do Ébola, que só agora começou a agitar e despertar a comunidade internacional, devido ao surgimento de casos nos EUA e na Europa, mas que já foi responsável por milhares de mortes em África. Veja-se também o caso da malária que, só em 2012, causou 627 000 mortes.

Hoje, as doenças esquecidas tais como a Malária, a Tuberculose, a Sida, o Ébola, a doença do sono, a Leishmaniose, a Biliarziose... não são suficientemente combatidas e matam todos os anos mais de 15 milhões de pessoas no mundo. Se acrescentarmos a esta verdadeira hecatombe a morbilidade provocada por essas doenças assim como por outras, também elas esquecidas, como a oncocercose ("cegueira dos rios"), o dengue, as diversas e graves avitaminoses como o beribéri... estaremos, em concreto, a levar esses povos a um subdesenvolvimento sem retorno. Tudo o resto é retórica oca e demagogia assassina! Está em curso um autêntico genocídio perante a indiferença global! Somos todos passíveis de julgamento histórico de " não assistência a povos em perigo"!

Se a isto acrescermos, como é de todos conhecido, que:

- Milhares de crianças morrem diariamente por insuficiente cobertura dos programas de vacinação e por inacessibilidade aos medicamentos eficazes já existentes nomeadamente para as infeções intestinais e respiratórias. (Não chega a 10% - dos cerca de 60 biliões de USD da investigação médica mundial anual - o montante para os problemas de saúde que afligem 90% da população mundial. Por outro lado, menos de 1% desses investimentos destinam-se à investigação da Malária, Tuberculose, Pneumopatias, Diarreias...que tantas vidas ceifam nos países em desenvolvimento!)

- Desde 1975 apenas foram lançados no mercado à volta de 35 novos fármacos de combate a doenças tropicais, dos quais 12 para as afeções veterinárias...

- A Organização Mundial do Comércio (OMC), sob a pressão do poderosíssimo lobby das multinacionais farmacêuticas, (só forçada pela pressão de organizações humanitárias, que gritavam perante o escândalo, e de países como o Brasil e a Índia) é que muito recentemente entreabriu a porta, com muitas precauções e limitações, permitindo que esses países pudessem produzir medicamentos a baixo preço, 10 vezes mais baratos, para os seus doentes com SIDA. Sob o pretexto da defesa das patentes, uma obstinação feroz que custou a vida a milhões de pessoas! Refira-se que muitas dessas patentes resultaram, e resultam, da pesquisa em matérias-primas recolhidas nesses mesmos países que, por tal, nunca receberam ou recebem nenhuma qualquer compensação!

- Uma em cada nove pessoas no mundo passa fome. Para acabar com esse flagelo e vergonha bastaria que se destinasse a esse combate o montante das verbas gastas nos EUA, ou na nossa rica Europa, em produtos de beleza e em roupas para cães e gatos...

Surpreendente, NÃO? Mais do que isso, inaceitável, sobretudo, porque, mercê de um desenvolvimento tecnológico sem equivalência histórica, nunca como hoje se produziu tanta riqueza no Mundo, nunca como hoje se acumulou tanto saber científico capaz, se bem orientado, de debelar as grandes pandemias que afetam largas centenas de milhões de pessoas e nunca como hoje foi possível estarmos instantaneamente informados do infortúnio desses povos.

Tais factos fazem com que o esquecimento a que é condenada uma parte muito significativa da Humanidade se torne, a meus olhos, ainda mais intolerável e absurdo! Estamos todos a assistir a um verdadeiro genocídio quotidiano, um autêntico terrorismo silencioso (porque silenciado) que, à semelhança de outros tão justamente noticiados como os conflitos e a péssima governação, deveria ser vigorosamente combatido. Não há dúvida de que tais fenómenos são os grandes geradores, no presente e no futuro, da espiral de frustração, de humilhação, de desespero e de violência que já nos atinge por ricochete, nomeadamente pelas ondas migratórias Sul/Norte e Este/Oeste, que irão em acelerado e avassalador crescendo...

Perante tais desmandos e desgovernação global só resta uma das seguintes opções:

1) Pactuar com os cínicos, oportunistas, derrotistas e... indiferentes;

2) Alienar-se com os que desesperam da condição humana, não prevendo para ela qualquer futuro ou melhoria;

3) Gritar, sensibilizar e atuar para quem ainda tenha uma réstia de sensibilidade, humanismo, resistência, carácter e coerência.

Os vírus da insensibilidade, indiferença, intolerância e ganância são e continuarão a ser muito mais mortíferos que o vírus do ébola e outros... Terrível constatação!!

É exatamente esta problemática, "Segurança e Dignidade das Populações", que  me leva a participar, desde há 15 anos, nas Conferências Anuais das Nações Unidas com as Organizações da Sociedade Civil Mundial em Nova Iorque.

Como as Nações Unidas, entendo que só pugnando pelo direito à DIGNIDADE de todos os homens (o que implica lutarmos todos para garantirmos a todos a satisfação das necessidades mais básicas, como a alimentação, a saúde, a educação, a liberdade de consciência) é que teremos um Mundo em SEGURANÇA, em PAZ e sem terrorismos, venham eles de grupos terroristas integristas (independentemente da religião adulterada invocada), de certos países ou de certas atitudes tais como a indiferença e a intolerância.

Este é o meu pensamento sincero e refletido, sem alarmismos, sem falsas seguranças, mas consciente de que é urgente pensarmos de forma global e deixarmos de cair no erro de reduzir o mundo ao nosso país, à nossa cidade, à nossa rua, ao conforto do nosso lar. Isso sim, é perigoso, irresponsável, egoísta e desumano... Até quando vamos fingir que não vemos e que não sabemos, até quando vamos ficar em silêncio, até quando vamos fingir que o nosso conforto é perene, até quando vamos permitir que não nos escutem? É tempo de nos levantarmos e agir! É tempo de gritarmos! É tempo de prestarmos atenção e mostrar que nos interessamos. Por nós, pelos outros, por todos!

Mas, ao gritarmos, será que alguém nos ouve? E, por isso, é que é, sobretudo, necessário agir.