Visão Solidária

Siga-nos nas redes

Perfil

Agenda Pós-2015: A imperiosa participação da Sociedade Civil

Fernando Nobre

 Participo, há mais de 15 anos, nas conferências da Organização das Nações Unidas direcionadas para a Sociedade Civil. Este ano, não será exceção

De 27 a 29 de agosto, estarei em Nova Iorque para participar na 65.ª edição da conferência do Departamento de Informação Pública da ONU, desta vez, subordinada ao tema da agenda pós-2015, em particular, ao papel da Sociedade Civil na definição dessa agenda, uma vez que estamos a 1 ano apenas de atingir o prazo para o alcance dos 8 objetivos definidos em 2000, na cimeira do milénio, por 189 chefes de estado.

Nesse sentido, a ONU e a comunidade internacional estão a reunir esforços para desenhar uma nova agenda para o desenvolvimento, fundamental para dar continuidade aos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, a ser adotada (assim se espera) na cimeira de setembro de 2015.

Parece-me, por isso, um passo extremamente importante, o envolvimento da Sociedade Civil neste processo e espero que a Sociedade Civil responda com uma participação ativa, exigente, interpelativa e transparente.

É imperativo que os cidadãos e a Sociedade Civil Global Solidária queiram e exijam que:

a) Sejam disponibilizados os meios financeiros e humanos suficientes para que os novos objetivos definidos em 2015 sejam efetivamente atingidos até 2030, e que seja obtido o perdão global da dívida e dos juros da dívida dos países em desenvolvimento. (Em dados financeiros compilados pelas próprias Nações Unidas, calcula-se que, num ano apenas, a crise financeira e económica tenha absorvido, em injeções diretas de capital e em avais financeiros, 18 milhões de milhões de USD. Como é possível que, num ano apenas, tenha sido gasto 50 vezes o que seria necessário, em 15 anos, para a concretização dos vitais ODM?)

b) Os Estados, Blocos Regionais (UE, UA, ASEAN, MERCOSUL, SADCC...) e Organizações Globais (ONU, G8, OMC, FMI, BM...) sejam democráticos, norteados pela Razão e RESPEITEM as Leis, os Povos ("Pela Lei e Pela Grei", a divisa sábia do nosso grande Rei D. João II) e o Planeta. Tendo-se ultimamente demitido das suas funções e responsabilidades para com os cidadãos, terão de ser mais intervenientes e reguladores (quanto baste) do Mercado e dos poderosos especuladores sem rosto e sem dó.

c) O Mercado seja responsável, não se podendo eximir dos seus deveres sociais e de cidadania. O vírus da ganância e as diversas e fraudulentas "engenharias financeiras" já cometeram estragos suficientes, roubando milhões de milhões e abalando, quando não destruindo, milhões de vidas. É fundamental que os cidadãos no Mundo recuperem a confiança nas suas empresas, nos seus bancos e nos seus gestores e que estes sejam exemplarmente responsabilizados perante os tribunais.

Como pilar da cidadania organizada, a Sociedade Civil é essencial para que, exercendo uma forte e sustentada pressão sobre os outros dois pilares da sociedade humana (Estado e Mercado), seja possível controlar a especulação assassina, erradicar a péssima governação e desenvolver uma genuína Diplomacia Democrática. A Cidadania Global Solidária é provavelmente a última muralha contra o Apocalipse (Jacques Attali) e corresponde seguramente ao novo paradigma humano, tão ansiado e indispensável para os próximos tempos inquietantes que muitos de nós já vislumbramos. É preciso que se obtenha um equilíbrio satisfatório para todos entre a Democracia Representativa e a Democracia Participativa, permitindo aos cidadãos exprimir-se, e que as suas opiniões sejam tidas em conta, quando matérias de relevo nacional, europeu e mundial estiverem em causa!

Assim sendo, e essa é a minha opção, só nos resta lutar pelo rápido fortalecimento da esperançosa Cidadania Global Solidária, a última muralha contra uma Dependência Global Armadilhada.

O Futuro da Humanidade pertence-nos. Cabe-nos a nós, Cidadãos e Cidadãs, se determinados e porventura motivados, imprimir um decisivo salto qualitativo no nosso destino coletivo, fazendo com que as nossas utopias de hoje sejam as realidades de amanhã. Acredito, decisivamente, eu, por vezes cético e pessimista de cicatrizes físicas e psíquicas adquiridas ao longo toda a minha caminhada humanitária global esperançosa, mas também sofrida, que o Optimismo da Vontade se há-de sobrepor sempre ao Pessimismo, quantas vezes compreensível, da Razão.

Cabe-nos a nós, Cidadãos e Cidadãs, em nome da Liberdade, da Democracia e da Sustentabilidade das nossas sociedades e do Planeta que importa preservar e reforçar (e não a qualquer Clube Bilderberg, Clube de Roma, Trilateral, Fórum Económico Mundial ou outras agremiações nada transparentes e muito menos democráticas), definir e defender que tipo de sociedade humana e que futuro queremos para nós e para as gerações vindouras (por exemplo, livres dos OGM e das Centrais Atómicas)!

Só assim poderemos ainda tentar ser a muralha contra o Apocalipse aparentemente desejado por uma nefasta minoria!

Sem a pressão da Sociedade Civil Global Solidária e o surgimento de uma nova geração de políticos e gestores que se alicercem na frontalidade, ética, valores e bom senso, continuaremos com as estéreis boas intenções. Apelo, pois, a todos os cidadãos para tomarem consciência e positivamente pressionarem...

A Sociedade Civil pode, deve e tem que exigir e obter o quanto antes, o fim da pobreza, das grandes guerras e da corrupção! É urgente e necessário que os próximos 15 anos possam consolidar e até concluir o trabalho iniciado com os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio no ano 2000. E nós, Sociedade Civil responsável e participativa, temos o dever de fazer tudo para que a nossa voz seja ouvida e que esse desejo venha a ser concretizado por e para seres humanos como nós!