Visão Solidária

Siga-nos nas redes

Perfil

Fevereiro e as crianças escravas

Dulce Rocha

  • 333

Vi recentemente um vídeo sobre o trabalho escravo no mundo de hoje que me impressionou imenso

Em Portugal, foi sempre em Fevereiro que se decidiu pôr fim à escravatura: primeiro o Marquês de Pombal, em 12 de fevereiro de 1761 decidiu acabar com ela, mas só na Metrópole e na Índia. Foi preciso passar mais de um século para ser decidida, pelo rei D. Luís, por Decreto, a abolição do estado de escravidão em todo o território da Monarquia Portuguesa, em 25 de fevereiro de 1869.

Recordo o belíssimo livro de Isabel Allende " A ilha debaixo do Mar". Romance fascinante que nos transporta para o Haiti nos finais do Século XVIII. Envolve-nos a história de Zarité, que foi vendida em África aos nove anos e que, apesar da adversidade, conseguiu sempre sonhar e conservar a esperança. Depois da fuga para Nova Orleães, conquistou finalmente a liberdade que ambicionava. Era uma mulher cheia de força, mas como ela própria reconhece, teve uma estrela, por nunca ter trabalhado nas plantações de cana-de-açúcar, onde os escravos eram espancados e morriam de fome e sede. 

Quando acabei de ler o livro, lembro-me de ter tido uma sensação de alívio, por serem histórias passadas, como as da "Cabana do pai Tomás", que li há quarenta anos, por indicação de minha mãe que era uma anti-esclavagista especial porque teimava que a escravidão existia sim, pois não desaparecia por decreto.

Falava-me então que a escravidão era um estado, uma condição em que as pessoas não se possuíam, não tinham liberdade, e dizia-me do "sacrifício da corda" que vira em África, com homens em fila presos por cordas, que diziam serem condenados, mas que todos sabiam terem sido arrancados às suas terras pelas "queimadas" para irem trabalhar nas minas de diamantes. Trabalho forçado, explicava. As mulheres ficavam destroçadas e com os filhos numa enorme miséria e agarravam-nos ao corpo com medo que lhos levassem enquanto trabalhavam nas plantações. Falava-me também das mulheres mutiladas no mais íntimo do seu ser. "Essas são duplamente escravas, filha, não lhes basta roubarem-lhes a liberdade, querem uma parte do seu corpo. A "excisão" é uma crueldade e uma humilhação. Fazem-lhes isto para não terem prazer quando têm relações sexuais". Creio que foi por tudo isto que ficou tão contente quando lhe disse que ia para Direito.

E Fevereiro foi o mês escolhido pelas Nações Unidas para assinalar o Dia Internacional da Tolerância Zero para a Mutilação Genital Feminina. Michelle Bachelet, que após a Presidência do Chile, foi nomeada para um Departamento novo na ONU dedicado à situação da Mulheres,   escreveu uma mensagem em que diz estimar-se que nos dias de hoje há ainda 140 milhões de mulheres mutiladas pela excisão.

Sempre achei que são boas as efemérides. Permitem-nos dizer coisas que não acharíamos jeito de dizer se não existissem. Não vêm a propósito e nunca "fazem toilette".

Mas estamos em Fevereiro, o tal mês em que foi publicado o Decreto que aboliu a escravatura.

E se sabemos, porque vemos, que há quem não consiga ainda hoje sair da escravidão, temos de chamar a atenção para esta realidade devastadora, que tem uma extensão que não nos pode deixar indiferentes. É assim a ética da responsabilidade.

Lisa Kristine, que andou por Países distantes a fotografar o indescritível, mostra como a escravatura é ainda praticada em muitos lugares do nosso mundo e como as crianças estão tão desprotegidas e são afinal seres descartáveis que ninguém reclama. 

Nesse vídeo, que está disponível no site da ONG "Free the Slaves" ela mostra crianças escravas de olhar triste e vazio de esperança, desde a prostituição na Tailândia, à pesca no Gana, desde a manufatura de tijolos no Paquistão à exploração das minas de Coltan no Congo.

Coltan é o novo minério que as grandes multinacionais usam para fabricar telemóveis.

Vi também um documentário sobre o trabalho forçado das mulheres "presas de consciência" na China. E algumas contaram como fazem iluminações de Natal durante horas seguidas, sem que o possam celebrar, tal como os meninos mineiros não podem usar os telemóveis.

Se cada um de nós utilizar as suas capacidades para informar mais e sensibilizar melhor, quem sabe se conseguiremos alguma mudança significativa? Bahman Ghodabi deu uma vez uma entrevista em que dizia que tinha decidido mostrar como era a vida das crianças curdas. Essa seria a sua arma. E gosto de acreditar que a emoção que sentimos ao ver os seus filmes será mais eficaz do que as outras armas.  O seu talento e a sua sensibilidade fazem-nos vibrar com a história dos irmãos órfãos Aiub e Amaneh, que vivem no Curdistão Iraniano, perto da fronteira com o Iraque e que trabalham arduamente para salvar Madi, que está muito doente e precisa de uma cirurgia muito cara, que só se faz no estrangeiro.

Estou convicta que a palavra também tem uma força extraordinária.

É por isso que escrevo, com a esperança de que em todos os meses do ano possamos celebrar a liberdade de expressão, contribuindo assim para que um dia todos possam alcançar a liberdade plena.