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O poder de um 'Gosto!'

Juniores e Seniores

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Luís Barra

Até onde pode chegar um grito de ajuda? Na era do Facebook, arriscamo-nos a dizer que "ao infinito e mais além". Essa é já a experiência de muitos portugueses - e a história de Nonô continua, diariamente, a comprová-lo. VEJA O VÍDEO

Vanessa sentou-se em frente do computador, no final de mais um longo dia de tratamentos da filha Leonor - uma menina cheia de vida, como são todas as crianças de 4 anos, mas que luta contra um temível cancro nos rins (tumor de Wilms bilateral, com metástases nos pulmões). Abriu a página do Facebook Os aprendizes da Nonô, bebeu um copo de água e respirou fundo: tinha mais de 80 mensagens privadas para ler. Vanessa insiste em responder a todas, de forma personalizada, mas, naquela noite, não conseguiu. Ficou presa ao texto de uma outra mãe, que acabara de dar à luz uma menina, e lhe contava ter decidido batizá-la de Leonor. "Um dia", leu, "irei explicar-lhe que deve o seu nome a uma menina de muita coragem.

Vanessa chamou o marido, Jorge, e os dois choraram debruçados sobre essa janela para o mundo que é o Facebook. "O amor que recebemos de pessoas que não conhecemos é impressionante", explica, no escritório da sua casa, enquanto mostra outras mensagens de apoio.

O amparo dos amigos tem-se revelado fundamental desde que a família Coutinho recebeu a chocante notícia, nas urgências do Hospital de Cascais, na noite em que a filha se queixava de uma simples dor de barriga e meia cidade celebrava o Santo António. Mas o casal não esperava a onda avassaladora de apoio que chegou através da rede social.

A página no Facebook foi fundada a 14 de junho - no dia seguinte ao diagnóstico - por colegas de Vanessa, funcionária na escola de línguas Wall Street. O principal propósito era angariar dinheiro para a mãe deixar de trabalhar (como veio a acontecer) e acompanhar a filha em permanência. Pretendia-se também reunir verbas que permitissem a sua deslocação à Alemanha, onde se realizam, a título privado, tratamentos de imunoterapia, através de uma vacina de células dendríticas, não disponível em Portugal. Essa hipótese surgia face ao prognóstico terrível apresentado, logo no primeiro dia. Perante o tamanho dos tumores (um deles tinha 16 centímetros, empurrando o rim direito até à zona do umbigo), e as mais de trinta metástases nos pulmões, os médicos não conseguiam disfarçar a comoção. "Disseram-me que se a Leonor fosse adulta nem tentariam tratá-la... iriam mandá-la para casa, para se despedir de nós, confortavelmente", recorda a mãe, emocionada. "Mas como as crianças reagem de forma muito boa à quimioterapia, explicaram-me que, por vezes, acontecem milagres." Os pais agarraram-se a essa ténue esperança. Se fosse preciso correr o mundo inteiro à procura de uma solução, iriam fazê-lo.

"Na altura, não me agradava a ideia de pedir ajuda a desconhecidos mas depois acedi, até porque pensei que a página iria chegar sobretudo aos funcionários e alunos da escola", recorda Vanessa. Contudo, em poucos dias o movimento ganhava asas e espalhava-se de forma viral na internet. Hoje, cinco meses depois de ter nascido, congrega já mais de 28 mil "amigos". Cada post publicado pela "mãe Vanessa" (como sempre assina) alcança facilmente mais de 5 mil "Gostos" e centenas de comentários, havendo publicações com um alcance na ordem do milhão e meio de pessoas (ver caixa). "Agora, se estou um dia sem dar notícias, tenho logo a caixa de e-mail entupida com mensagens de preocupação: 'Está tudo bem com a nossa Nonô?'"

Vanessa procura contar diariamente pequenas histórias do quotidiano da filha e já sabe também que cada palavra publicada obtém uma resposta imediata "do outro lado" do mural. Aprendeu essa lição no dia em que partilhou uma fotografia de Leonor com um vestido de princesa, confidenciando que a filha, se pudesse, teria a coleção toda da Disney. Dito e feito. O carteiro já dizia piadas sempre que lhes batia à porta: um a um, vieram de todo o País (e de Inglaterra, da Austrália e dos Estados Unidos) os 22 vestidos desejados.

Euro a euro...

Através da rede social tem chegado muito amor - e também muito dinheiro. A maioria das pessoas realiza pequenas transferências, de 1, 2 ou 5 euros, deixando no espaço destinado à descrição da transferência bancária mensagens que imitam a linguagem do Facebook: "O nosso sorriso para a Leonor" ou "Força Nonô!", são alguns exemplos gravados nos extratos bancários da conta aberta em nome da menina.

Agora, se os pais assim entenderem, a Leonor poderá realizar o tratamento experimental na Alemanha, que custa cerca de 30 mil euros. Em agosto chegaram a voar para a clínica privada de Duderstadt e só não avançaram de imediato com a vacinação porque o médico Thomas Nesselhut entendeu que seria mais vantajoso que a Leonor terminasse primeiro os ciclos de quimioterapia no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa. Médicos portugueses e germânicos trabalham hoje em sintonia, o que sucede pela primeira vez desde o precedente aberto pelo caso de Safira Mateus Freitas (ver VISÃO de 28 de outubro de 2011), que chegou a ser discutido em Tribunal de Menores, tendo os seus pais arriscado perder a guarda da menina, ao optarem por seguir um tratamento não convencional.

Terminado o protocolo de quimioterapia no IPO, Leonor fará novos exames, esta semana, para determinar o tamanho atual dos tumores e a extensão das metástases - sendo certo que as primeiras análises revelaram resultados classificados como "espetaculares" pela sua médica assistente. Em dezembro, a família saberá qual o caminho a seguir. Com a certeza de que, graças aos seus "amigos" do Facebook, não será por falta de dinheiro que a Nonô desistirá de enfrentar o cancro com todas as armas disponíveis.

Num dos últimos dias de tratamentos no IPO, totalmente careca e sem grande energia, a menina deixou-se fotografar com uma placa de ardósia onde a mãe escreveu: "Vou vencer!" Nonô esboçou um sorriso e a rede envolveu-a num grande abraço: mais de 12 mil "Gostos", 900 partilhas e 400 comentários cheios de sorrisos e corações.

É por isto que, todas as noites, a "mãe Vanessa" se senta em frente ao computador, lendo mensagens, respondendo aos comentários ou retribuindo, simplesmente, "gostando" do que centenas de pessoas escrevem sobre a sua filha. "Enche-nos o coração ver como há tanta gente a apoiar a Nonô, seja com dinheiro seja com uma oração ou uma palavra amiga. Nunca conseguiremos retribuir o que nos deram. Passámos dias muito difíceis e foi no Facebook que encontrámos, muitas vezes, a força para continuar. Sempre que abrimos esta página, sentimos que não estamos sozinhos."