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Miúdos com raiva de gente grande

Juniores e Seniores

«A raiva é o afeto virado do avesso», diz a pedopsiquiatra Alda Mira Coelho

Luís Barra

O retrato oficial é de um país com escolas tranquilas mas, aqui e ali, contam-se histórias de agressões entre jovens com graus de violência que impressionam

Almeirim, 23 de janeiro: um aluno do 1.º ciclo do Centro Escolar dos Charcos foi suspenso por pontapear um colega de 10 anos. Estavam a jogar "futebol humano".

A criança agredida foi assistida pelos bombeiros e, depois, levada para o hospital.

Queijas, 30 de janeiro: trinta estudantes da Escola Básica Professor Noronha Feio são identificados pela polícia por desentendimentos e tentativa de agressão a outro aluno.

Vila Nova de Gaia, 31 de janeiro: na cantina da Escola Secundária Inês de Castro, dois miúdos envolveram-se numa luta. Um deles partiu o braço, uma colega desmaiou. Duas ambulâncias foram chamadas à escola.

Uns dias antes, a 20 de janeiro, fora a vez de António, 12 anos, sentir a agressividade que vai sendo notícia, com cada vez mais frequência. Aluno da EB 2, 3 Delfim Santos, em Benfica, tagarelava com o colega do lado.

Rafael, dois chumbos no currículo, sentado na secretária de trás, manda-o calar, ordem sublinhada com uns carolos. António pede-lhe que pare e a aula prossegue, até ao fim da tarde. Quando saem, António insiste com o outro para deixar de o importunar. Em minutos, está no chão do pátio, enquanto Rafael o esmurra na cara e depois sai da escola.

Amparado por colegas, António pede ajuda mas a empregada do pavilhão desdramatiza o caso. Na direção, informam-no de que não há ninguém com quem falar. O miúdo vai para casa, sozinho. "Como não deitou sangue, ninguém se assustou", conta a mãe, Ana Paula Homem, 50 anos, revoltada com tamanha violência entre meninos tão novos: "Nunca pensei que o meu filho chegasse a casa com o nariz partido por murros." Depois de muitos protestos, o agressor foi suspenso uma semana.

Números contraditórios

O ano começou com este tipo de registos mas, dizem as estatísticas oficiais, são casos fora da norma. Segundo o programa Escola Segura, apresentado há um mês pelo Ministério da Educação, só 5% dos estabelecimentos de ensino registaram, no ano anterior, ocorrências deste género, menos mil, no entanto, do que em 2012 1 446 versus 2 218.

Os diretores das escolas acima citadas são os primeiros a desvalorizá-las: "Foi um caso isolado, pode ter havido um encontrão aqui e outro ali, mas foi mera indisciplina", refuta José Carreira, diretor do agrupamento de Almeirim. "São situações empoladas", concorda Alberto Machado, responsável das escolas de Queijas. O diretor da Secundária de Gaia vai mais longe: "As ambulâncias foram lá, porque temos a sorte de estar perto." Os pais têm a mesma opinião. "A violência dentro da escola é pontual", insiste Jorge Ascenção, o presidente da CONFAP. Mas a dúvida instalou-se mal a Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas assumiu que nem todas as situações são reportadas à plataforma oficial. "É um sistema burocrático, demora mais preencher papéis que resolver o problema", justifica Filinto Lima, vice-presidente. Duas semanas depois, dados divulgados pela Procuradoria-Geral da República, sobre o distrito judicial de Lisboa, iam no mesmo sentido: a violência na comunidade escolar, entre jovens com mais de 16 anos, aumentou 21,6 por cento.

É uma guerra de números que parece não ter fim: segundo o barómetro da Associação dos Empresários pela Inclusão Social, que auscultou 23 mil alunos de estabelecimentos com 3.º ciclo, mais de 60% reconheceram que há violência na sua escola. O que pode traduzir uma tendência, receia Margarida Gaspar de Matos, responsável pelos dados nacionais dos estudos da Organização Mundial de Saúde sobre o estilo de vida dos adolescentes: "A violência diminuiu entre 2002 e 2012, mas, com a crise, essa situação pode ter-se invertido." Para João Sebastião, sociólogo e investigador que, até final de 2012, coordenava o Observatório da Segurança Escolar, a descida dos números da Escola Segura pode ser explicada por um sem-número de razões. "Não sabemos realmente o que se passa", receia o especialista, crítico de uma escola que alargou a idade da escolaridade obrigatória mas acabou com o módulo de educação cívica e reduziu o número de auxiliares de ação educativa.

Gonçalo, então com 15 anos, lançou o pânico na escola, com uma faca e um very light

Meninas também batem

Foi a meio daquele ano, em maio de 2012, que se tornou viral, no Facebook, o vídeo de uma rapariga a ser espancada por outras duas, enquanto um rapaz filmava a cena. Pelas imagens, a polícia conseguiu perceber que a agressão fora consumada junto do Centro Comercial Colombo, em Lisboa, e, pouco depois, já tinha identificado a jovem agredida.

Horas antes, Filipa, então com 13 anos, terá ajudado as duas agressoras, Raquel e Bárbara, de 15 e 16 anos, a roubar. O DIAP acusou-as do furto de um telemóvel, uma mala, um iPod, duas carteiras, um relógio, produtos de limpeza e 120 euros de outras duas raparigas, e de terem dividido os objetos entre si.

"Não ficou nada provado", refuta Filipa, hoje com 16 anos. A advogada da jovem agredida, Flávia Xavier, afirma que o Tribunal de Família optou por sujeitar a jovem a um plano de reinserção que Filipa cumpriu. "Sempre fora boa aluna, mas, nesse ano, descarrilou.", desculpa a jurista. A rapariga reconhece que andava por maus caminhos: "Queria ter mais liberdade. Como os meus pais não me deixavam sair, não ia às aulas." Hoje, está a acabar o 9.º ano, na via vocacional de informática. Dos outros, sabe apenas que Raquel foi internada num centro da Justiça por um ano e tirou um curso de cabeleireira. Bárbara não voltou a ser vista, Rodolfo permanece preso.

"Se calhar, os nossos jovens andam um bocadinho à solta de mais", considera Francisco Maia Neto, procurador-geral adjunto e membro da Comissão Nacional de Crianças e Jovens em Risco: "Andam sem rede, numa sociedade precária, assente no consumo imediato.

O furto surge, depois, como compensação.

Quando não se está afetivamente preenchido, procuram-se bens." Outros estudos confirmam esta ideia, diz Ana Cardoso, investigadora do Centro de Estudos para a Intervenção Social e membro do grupo de quatro autores do You Prev, projeto europeu da área da prevenção e controlo da delinquência juvenil. Entre 2011 e 2012, ouviram 1 550 alunos entre os 13 e os 16 anos, e 29% admitiram já ter cometido, pelo menos uma vez, algum dos crimes identificados no questionário. Destes, 15,2% repetiram os atos, 5,7% praticavam-nos com frequência e 13% recorriam à violência. O furto em lojas é o mais comum daqueles crimes. A posse de arma foi referida por 5,8% dos rapazes.

António, 12 anos, foi esmurrado por um colega depois de lhe pedir para parar com os carolos

Mecanismos frágeis

Em demasiados casos, combina-se o desemprego dos pais com a violência doméstica.

A exposição a ambientes em que a agressão é rotineira está na base do aumento de condutas desviantes. Alda Mira Coelho, pedopsiquiatra no Centro Hospitalar de São João, no Porto, e coordenadora do núcleo hospitalar de apoio a crianças e jovens em risco, confirma: "Quando o jovem não se sente importante para ninguém, desenvolve mecanismos frágeis para lidar com a frustração. Se os modelos parentais forem geradores de violência, será provável que a criança venha também a assimilá-la, no futuro. A raiva é o afeto virado do avesso", argumenta.

Os dados sobre a saúde mental dos adolescentes que, entretanto, caíram na alçada da Justiça, vão no mesmo sentido: mais de 90% dos miúdos com processos tutelares educativos (internados ou sob acompanhamento) têm perturbações psíquicas e emocionais.

"É um número inquietante", alertava Daniel Rijo, investigador da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra e coordenador do estudo, em novembro, quando as conclusões foram conhecidas. "Significa que não são sinalizados devidamente ou foram alvo de uma intervenção deficitária." Mas não só: "Mostra, também, que há uma sociedade a deixá-los crescer de forma disfuncional, sem se preocupar com isso." Em Massamá, na casa de Gonçalo, 16 anos, os pais do rapaz nem imaginavam que o filho pudesse, um dia, integrar estas estatísticas.

Foi a meio de outubro que semeou o pânico na Escola Stuart Carvalhais, ao ferir dois colegas e uma funcionária. O seu plano, terá dito a alguns amigos, era matar 60 pessoas para bater o recorde americano de 59 mortos em Columbine, e suicidar-se em seguida. Nessa tarde, interrompeu uma aula para lançar um very light e atacar quem encontrou pela frente. Mas, depois, não matou ninguém e entregou-se, sem resistir. Em teoria, teria uma bomba caseira, gás-pimenta, gasolina. mas na mochila encontraram apenas facas, spray de fumo e álcool. Detido de imediato, foi logo enviado para um centro da Justiça, numa espécie de preventiva, durante três meses. No início do ano, surgiu a decisão: dois anos e meio de internamento, dado o alegado plano e a ausência de arrependimento. Apenas foi descartado o crime de terrorismo.

Pior sorte teve Tiago, o bom aluno que matou a mãe, poucos dias depois do caso de Gonçalo.

Filho único, era um aluno de excelência, mas a mãe queria que ele fosse ainda melhor.

Naquela tarde, começaram a discutir, mal chegaram a casa. A mãe tirou-lhe o telemóvel e o acesso ao portátil, Tiago sacou da navalha e esfaqueou-a. A mulher ainda conseguiu chegar ao jardim e pedir ajuda, mas um novo golpe fê-la esvair-se em sangue, até à morte.

O filho fechou-se em casa e chamou a polícia.

Por já ter 16 anos, será julgado como adulto.

Mais um caso de um rapaz que até podia ter o sofrimento estampado na cara enquanto a raiva lhe crescia nos dentes mas que ninguém conseguiu ver.

*com Luísa Oliveira