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'As crianças em risco são detetadas tarde de mais'

Juniores e Seniores

Maria Manuela Calheiros, coordenadora do Centro de Investigação Social ISCTE/IUL

É preciso sinalizar mais cedo os menores alvo de maus tratos ou negligência, diz a coordenadora do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE/IUL, Maria Manuela Calheiros

Quais as diferenças entre negligência e maus tratos?

O mau trato pressupõe uma ação, enquanto a negligência pressupõe uma omissão. O mau trato físico inclui os atos violentos que os pais usam como método de educação coerciva/ punitiva; o mau trato psicológico baseia-se nas ações parentais e nos danos para a criança e inclui os atos de comunicação verbal, mas também a exposição da criança a conflitos e violência doméstica.

A negligência por falta de provisão envolve cuidados físicos e de saúde, a habitação e a educação.

Já a falta de supervisão caracteriza-se por situações em que os pais não tomam as precauções necessárias para garantir a segurança da criança.

Existe relação direta entre tempos de crise e aumento dos casos de maus tratos a crianças?

A relação pode não ser direta, mas, segundo a Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens em Risco, o volume de casos aumentou nos últimos anos. Em 2013, o número de processos em acompanhamento foi de 71 567, tendo crescido gradualmente desde 2011 (67 941 casos) e 2012 (69 007), devido sobretudo a novas sinalizações. A crise parece ter agravado a situação, mas o facto de um pai ou uma mãe estarem desempregados não quer dizer que possam ser negligentes ou maltratantes.

Quais são os efeitos dos maus tratos nas crianças durante a sua infância?

As crianças maltratadas são mais agressivas, disruptivas e não cooperativas do que as outras, apresentando uma incapacidade geral na área das relações sociais e problemas emocionais. As crianças negligenciadas revelam muitas dificuldades em lidar com as tarefas escolares, elevada falta de concentração e de envolvimento na aprendizagem e são reservadas socialmente, isoladas.

Que adultos serão os que em crianças foram vítimas?

Uma criança maltratada ou negligenciada na infância não tem de ser um pai ou mãe maltratante.

Os efeitos a longo prazo dependem muito da natureza da violência vivida na infância, das capacidades da criança para avaliar, responder e lidar com a violência, do desenvolvimento cognitivo, emocional e capacidades físicas das vítimas, mas sobretudo dos recursos de proteção e suporte do meio para a intervenção neste tipo de situações.

Por exemplo, os efeitos da negligência são mais nefastos e de recuperação mais difícil do que os do mau trato.

Como pode a sociedade civil atuar melhor face aos maus tratos?

Uma das etapas mais importantes da atuação social, a par da prevenção e da intervenção, é a de evitar que as crianças em risco sejam detetadas, na maioria das vezes, tardiamente, já em situação de mau trato e negligência grave. Por isso, há que definir parâmetros de sinalização. E deve haver uma programação de intervenção preventiva nas situações de risco.