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Palavra de Sénior de Constantino Sakellarides

Envelhecimento Ativo

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Assim é envelhecer, segundo o director da Escola Nacional de Saúde Pública, de 71 anos

"Na Escandinávia, em Fevereiro, o amanhecer é frio e tardio. Ainda era noite lá fora, quando alguém bateu à porta do meu gabinete de trabalho, em Copenhaga. Era o ainda jovem irlandês, responsável pelos "recursos humanos" da Organização Mundial da Saúde para a Europa. Vinha felicitar-me, calorosamente, por fazer naquele dia 50 anos. Sentou-se e logo de seguida, perguntou-me - "... e já pensou o que vai fazer daqui a 10 anos, quando se reformar?"

A pergunta foi inesperada, e, num primeiro momento, muito incómoda. Então com tanta coisa interessante, importante e urgente à minha volta, íamos agora pensar no que irá acontecer daqui a dez anos, ainda-por-cima debruçarmo-nos sobre aquela data impensável, em que por um critério cego, seria afastado compulsivamente daquilo que durante décadas me tinha qualificado para fazer bem?

 Depois, conversámos bem mais do que meia hora:

Seria possível viver plenamente cada momento que passa e ao mesmo tempo preparar o futuro, e neste caso, acumular os "mantimentos" necessários para um envelhecimento física e intelectualmente ativo - boas memórias, relações de afeto com familiares e amigos, um corpo suficientemente preservado, alguma previdência material e uma ideia sobre o futuro?

E esse futuro, o pós reforma, seria feito "em continuidades", aproveitando o capital intelectual e social acumulado, para seguir tratando do mesmo, agora de outra forma e noutro contexto, ou aconteceria antes "em rutura" com as atividades predominantes no passado, explorando novos territórios, completamente originais ou já antevistos e de alguma forma preparados nos "últimos anos"?

Passaram quase 22 anos. De uma coisa estou certo: aos 50, precisamos de alguém que nos faça pensar nessas perguntas, não-casualmente. Envelhecer ativamente não é uma opção de última hora. Mas tão-pouco as circunstâncias em que esse envelhecimento terá lugar são sempre facilmente previsíveis.

Em meados dos anos 90, perante uma crise socioeconómica menos ameaçadora que a atual, Eduardo Prado Coelho escreveu algo que se aplica, muito mais apropriadamente, à situação que hoje vivemos: "a crise atual é desesperadamente uma crise da ideia do futuro  ... tudo leva a crer que os nossos filhos não viverão melhor do que nós". Atualmente, uma maioria assustadora dos nossos jovens mais qualificados pensa que o seu futuro não passa pelo seu país, mas antes por qualquer destino de emigração. Julgo que nestas circunstâncias, um envelhecimento verdadeiramente ativo, terá que ser muito menos "pessoal" e muito mais "familiar e social" do que o "inicialmente previsto".

Porventura o envelhecimento far-se-á melhor se ainda empenhados no futuro dos que nos rodeiam, com o que podemos, do que vivendo o passado, com o que nos resta. A tanto não chegou a conversa com um irlandês atento, naquela já distante manhã gélida do norte. "