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"A cidade amiga do idoso é melhor para todos"

Envelhecimento Ativo

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«Envelhecer é bom, muito bom. Agora, faço o que quero, falo o que quero...»

Especialista em envelhecimento ativo, o brasileiro Alexandre Kalache insiste que só temos a ganhar ao investir numa sociedade para todas as idades.

Convidado especial do Congresso Internacional do Envelhecimento, que decorreu no Taguspark, em Oeiras, organizado pela Associação dos Amigos da Grande Idade, o especialista passou os últimos 12 anos da sua vida profissional à frente dos programas de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde. Desde o final do ano passado, está à procura de parceiros para desenvolver o projeto do Centro Internacional do Envelhecimento, com sede no Rio de Janeiro, e criar políticas públicas a favor desta população crescente que está a envelhecer.

O que o levou a interessar-se por esta questão?

Os meus avós. Tive a sorte de ter nascido numa família multicultural, um avô do Porto, casado com uma italiana - da parte da mãe. Da parte do pai, o meu avô era grego, casado com uma síria. E era uma família muito grande. Os meus avós tinham 13, 17 irmãos. E como eram todos imigrantes, eu era o recetáculo. Naquele tempo, não tinha televisão. Ficava perto daqueles velhos e ficava a ouvir, fascinado. Quando fui fazer Medicina, ainda não sabia bem, mas já estava escrito. A minha mãe tinha isso naqueles livros do bebé. Quando fiz seis anos, ela escreveu: 'hoje, estou muito feliz, porque o Alexandre me disse ia ser médico porque aí os pais estarão idosos e vão precisar dos cuidados dele'. Sempre tive liberdade de fazer o que quisesse, desde que fosse Medicina. Bom, não me arrependo, nada, claro. Quando fui para Inglaterra, vi-me numa sociedade envelhecida e que esse é o futuro, vai acontecer em todo o lado.

Porque temos uma atitude negativa face ao envelhecimento?

Em grande parte, é atávico, já os nossos mais remotos ascendentes como Cícero faziam a essa discriminação. A busca da fonte eterna da juventude sempre nos acompanhou...

Mas não havia uma reverência face ao mais velho, que era o detentor da sabedoria?

Isso em tempos que havia dois ou três velhos e sobrava gente mais nova para cuidar deles, quando não eram um problema. Mas a imensa maioria desses poucos vivia muito mal e isso não está retratado na literatura. Segundo o registo histórico, que demógrafos e historiadores procuram fazer, o envelhecimento sempre foi destratado. Mas piorou. O belo e o bonito é o jovem, e bombardeiam-nos com isso o tempo todo. E é o oposto do envelhecimento, da experiência. Daí que se exija que, para uma pessoa idosa ser bem aceite, seja especialmente simpática, carismática, bonita...E a maioria não é assim.

Acredita que essa mudança de atitude face ao envelhecimento pode acontecer naturalmente com as próximas gerações?

Não, envelhecimento ativo não é desporto nem botox, não é desse envelhecimento que eu falo. Eu vejo as pessoas na academia a querer ser jovem, a querer adiar as rugas, não é disso que se trata. A definição da Organização Mundial de Saúde, que projetei, fala antes de um processo de otimizar as oportunidades de saúde, participação e segurança, de forma a aumentar a qualidade de vida à medida que cada um envelhece. A pior coisa da velhice é você viver sob a ameaça de que, de hoje para amanhã, vai ser abandonado e não há quem lhe cuide. Mais recentemente, colocámos outro pilar nessa definição que é a educação continuada, para acrescentar conhecimento e fazer com que essa pessoa siga relevante para a sociedade.

É curioso que, segundo essa visão, o envelhecimento ativo comece, exatamente, na infância...

Aliás, começa antes de você nascer. Ainda na fase embrionária. Por exemplo, se a mãe fumar, esse futuro bebé já começou mal porque as oportunidades de saúde para ele já serão menores. Hoje, com o mundo a envelhecer, temos de começar a preparar as gerações para isso desde o início. Depois, levá-los a uma alimentação cuidada, a evitar obesidade, a não beber em excesso...Há uma revolução importante a fazer: eu sou um 'gerontolescente', um 'envelhescente', sou o novo adolescente, não vou envelhecer como o meu pai, muito menos como meu avô. Quero participar, ser ativo, quero protestar quando for preciso, estou na luta. Tenho isso escrito no ADN. Nós, os líderes estudantis de há 40 anos, que brigámos pelos direitos humanos, não vamos querer isso, nem deixar que isso acontece.

Mostrou-se surpreendido por a primeira medida de François Holande, o novo presidente da França, ter sido o baixar da idade da reforma, para os 60 anos. Porquê?

É um absurdo, um populismo barato, porque é insustentável, cada vez que tiver pessoas idosas, trabalhando, contribuindo para os seus países, a criar riqueza. Se trabalharem, não serão um fardo, pagam imposto, consomem, criam recursos, até ajudam a criar emprego, porque estimulam a economia.

É-lhe difícil perceber porque as pessoas apoiam essa ideia de deixar de trabalhar mais cedo?

Sim, porque isso cria discriminação e mostra que ainda está muito embutido em nós essa ideia do envelhecimento passivo, calado, de pijama e chinelo, a fazer tricô. Ainda está muito impregnado na cabeça das pessoas. Mas a nova geração de seniores vai fazer isso. Estou a fazer assessoria de um banco no Brasil e estou a fazer a cabeça dele para apostar nos idosos, porque eles são a população crescente, que acumula economia. E os bancos têm feito tudo para complicar a vida dessas pessoas: já não se fala com ninguém, se não sabe informática, carrega no botão errado e desaparece o que estava fazendo...Fizemos um estudo fantástico em 18 cidades, para saber o que eles querem e dar-lhes poder. Essa é a forma de criar uma cidade, uma sociedade mais amiga do idoso.

É preciso convencer o mundo que envelhecer é bom?

E é muito bom. Você não tem mais amarras, que quando se é jovem, que tem de fazer carreira e agradar ao chefe. Agora, não tenho mais disso, faço o que quero, falo o que quero...

Há ainda a questão financeira e de sustentabilidade dos sistemas de saúde. Como vê isso? 

É um problema imenso. Daí que estava a falar que quanto mais velho for, menos oneroso será para o sistema de saúde. Morre mais depressa e os socorros não serão tão heroicos. Não se gastará tanto com alguém de 90 anos. Só se houver lucro envolvido é que se estenderá exageradamente para estender essa vida. Tanto a extensão inadequada da vida como a antecipação exagerada da morte não são éticas. E isso é complicado, porque a tecnologia está a permitir que se prolongue a vida sem qualquer perspetiva, em seis meses que seja, de ter qualidade. Há uma medicação excessiva do envelhecimento, na busca da fonte da juventude eterna...

É doentia, essa procura?

O Brasil está cheio de velhos a tomar a hormona de crescimento para combater o envelhecimento. É uma indústria perigosa a fazer um montão de dinheiro com gente a tomar algo que é da juventude.

As pessoas querem ser jovens para sempre, mas não querem continuar a trabalhar. Como se resolve isso?

Não querem trabalhar porque não têm satisfação no que fazem. Se tivessem oportunidade de fazer uma reforma gradual - hoje isso é feito de uma forma abrupta: você hoje está a trabalhar, e amanhã não trabalha mais. É por isso que é acompanhada de uma mortalidade mais alta no primeiro ano. As pessoas ficam desorientadas.

O que fazer?

Dar incentivos à empresa para que crie novas oportunidades, que possa passar a trabalhar menos horas, em outro tipo de função. A sociedade ganha porque diminui a dependência, tem mais imposto, com essa riqueza oferece oportunidades de trabalho para o jovem. As pessoas ficam mais felizes. Imagina eu, se ficar agora 30 anos sem fazer nada, vou encher a paciência do mundo à minha volta, todo o mundo vai ficar louco. Me ocupem. A sociedade longeva obriga a isso. Não estamos mais em 1865 quando se decidiu que a reforma era aos 65 anos, os que lá chegavam eram uma minoria.

Porque a cidade amiga do idoso é amiga de todos?

Nós fizemos um inquérito no Rio de Janeiro para saber o que preocupa o idoso. Em Copacabana, nos disseram: os nossos melhores amigos são os porteiros. Os inimigos são os motoristas. A maior preocupação é a segurança. Nada a ver com medicina. Já temos três grupos de pessoas para treinar. O motorista é o maior exemplo: é pressionado pelo patrão para cumprir o turno. Os autocarros são altos, dificultam ainda mais a vida ao idoso. Mas imagine: se for fácil para o idoso usar, vai ser fácil para a criança pequena, para o obeso, para a mulher grávida, para o deficiente, para o adolescente carregado com a mochila. Essa a filosofia que precisamos aplicar em tudo. Hoje, as cidades são para campeão olímpico: ninguém consegue atravessar as estradas com facilidade. Não há menus para idoso nos restaurantes, que comem menos e mais cedo. Porque não criar uma happy hour para eles? Todo o mundo ganha. No fim, temos uma sociedade para todas as idades.

 

BI

Alexandre Kalache

Presidente do Centro Internacional do Envelhecimento

67 anos

Médico e investigador, doutorado em Saúde Pública pela Universidade de Oxford, em Inglaterra, foi durante 12 anos chefe do Programa de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial de Saúde. É o autor, e grande impulsionador, desse conceito inovador que é a Cidade Amiga das Pessoas Idosas - e assinala que a longevidade, essa grande conquista do século XX é o grande desafio do século XXI.