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"Um amigo imaginário?"

Clara Soares

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Clara Soares responde a questões sobre psicologia. Envie as suas perguntas para visaosolidaria@impresa.pt

O comportamento do meu filho anda a preocupar-me. Há algumas semanas que fala com um amigo imaginário.

Sei que isso é normal nos miúdos pequenos. O que não sei é como lidar com isso, em situações concretas.

Por exemplo, quando o meu filho não quer fazer alguma coisa ou se recusa a admitir que foi ele que deixou os brinquedos espalhados pelo chão do quarto, é sempre 'o amigo' que fez, ou não quer fazer. Ele vai para uma actividade de tempos livres organizada pelo infantário, daqui a uma semana, até eu e o meu marido termos férias. Mas vejo-o mais entusiasmado com o 'amigo' do que com os colegas que vão com ele.

Estarei a preocupar-me em excesso?

Helena

Ter um amigo imaginário quando se é pequeno não deve constituir para os pais uma fonte de preocupação. Esta é uma forma de a criança ensaiar as suas capacidades intersubjectivas, ou seja, a sua forma de comunicar com os outros, na sua mente. É também um modo de "conviver" com os adultos (e, eventualmente, com irmãos) sem eles estarem sempre presentes no seu mundo privado. O 'amigo' pode funcionar como um alter ego, um outro que sabe tudo de nós e a quem podemos confiar todos os nossos medos e emoções novas ou perturbadoras. Por vezes, é também aquele a quem podemos atribuir responsabilidades ou 'culpas' por comportamentos ou sentimentos não desejados ou que geram desconforto.

Entrar no jogo da criança e facilitar a expressão do que quer que seja que o 'amigo' represente, num dado momento, é a via a seguir. Essa presença fictícia parece ter funções bem concretas: o 'amigo' recusa-se a fazer algo ou faz algo reprovável (desejos expressos pela criança através de um outro, que não ele). Talvez seja boa ideia sugerir-lhe, em situações deste tipo, que "não faz mal, ele aprende com os erros, agora podes ajuda-lo a arrumar os brinquedos", ou "tens mesmo de vir para a mesa, 'o amigo' pode continuar no sofá a jogar playstation, se quiser". Assim, estará a exercer a sua função parental aceitando, ao mesmo tempo, o mundo interno do seu filho.

Quanto ao entusiasmo pelo companheiro de fantasia, na altura em que seria expectável estar mais interessado nos jogos com os colegas dos tempos livres: é possível que o seu filho esteja algo receoso com a mudança que tal vai ter na vida dele e canalize medos e expectativas desta maneira. Tratando-se de uma mera hipótese, procure apenas estar atenta, sem preocupar-se em demasia. Afinal, o 'amigo' faz parte de uma etapa normal do desenvolvimento infantil e traduz um modo criativo de lidar com situações stressantes. É, ainda, uma oportunidade para ser igualmente criativa e indagar, num momento oportuno, se 'o amigo' está a postos para o programa da semana que vem.