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"Separei-me. Tenho medo"

Clara Soares

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Clara Soares responde a questões sobre psicologia. Envie as suas perguntas para visaosolidaria@impresa.pt

Nenhum remédio surte efeito.

Não sei o que fazer, o trauma emocional da minha separação me deixou paralisado, mas talvez a causa esteja em traumas emocionais passados.

Gilberto

Desconheço quais são as formas que está, porventura, a experimentar, para superar estados emocionais difíceis (como o de paralisia) associados ao "trauma" da separação. Porém, é preciso reconhecer que nenhuma delas funcionará como uma "borracha mágica" pronta a apagar o que quer que tenha acontecido ou esteja a sentir agora (choque, desespero, desamparo).

A capacidade de levar a cabo o luto pelo fim da relação, nas suas diversas etapas, dependerá da forma como foi aprendendo a lidar com as perdas ao longo da sua vida. Independentemente de quem "ditou" a sentença de afastamento, é possível que o "estar paralisado" se deva à impossibilidade temporária de admitir a dor da perda (a primeira etapa do luto, havendo outras, como a de revolta, de ambivalência, de depressão). 

Já agora, quando fala de remédio, estará a referir-se a fármacos? Esta questão é importante, porque se a situação letárgica ou a sensação de estar bloqueado se arrastar por mais de um ano, em média, é essencial recorrer à ajuda de um médico que lhe prescreva a medicação adequada ao seu caso e o acompanhe ao longo do tratamento químico. 

Se noutras fases da sua vida, ficou mais "preso" na dificuldade de admitir e, mais tarde, aceitar o vazio da perda, para depois seguir em frente, é provável que a presente situação desperte em si as memórias de eventos prévios, em que também se sentiu desse modo. Lembre-se que entre a fase de "ir ao tapete" (quando efetivamente se deprime sem estar a fugir ao que é óbvio, mas doloroso) e a da aceitação - sem ressentimentos nem pedras no sapato - podem passar-se alguns meses. Ou alguns anos.

Uma separação envolve sempre uma escolha (assumida por si, imposta por outro ou tomada e reconhecida por ambos): há algo que se perde (a zona de conforto que, para o melhor e o pior, existia na relação que lhe era familiar) e algo que se ganha (liberdade / legitimidade para ir em busca de novos objetos de amor). Entre digerir expectativas goradas e ressentimentos e redirecionar o seu foco de atenção /intenção, sem ficar paralisado, é pois, uma questão de tempo. Com ajuda psicológica, se for caso.