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Psicologia Quotidiana

Clara Soares

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Clara Soares responde a questões sobre psicologia. Envie as suas perguntas para visaosolidaria@impresa.pt

Tenho 28 anos e vivo com o meu namorado há dois. Estava tudo a correr sobre rodas, mas desde há uns meses as coisas têm vindo a mudar. Para pior. Ele diz que o sufoco, que estou a tornar-me chata, que precisa de tempo para ele, para os amigos, para a carreira. Parece que não tenho um papel central na vida dele. E que sou sempre a má da fita. Eu não me vejo a viver sem ele, e até quero ser mãe, mas ele diz que não está preparado. Perguntei-lhe já se ele estaria interessado noutra pessoa. Ele diz que eu estou a ficar paranóica. Reconheço que são os meus medos a falar por mim, mas não consigo evitar e a nossa intimidade ressente-se. O que posso fazer para que ele não se farte de mim?

Mariana V., Setúbal

A vida a dois é feita de interdependência. Por isso se costuma dizer que "o amor é caminhar lado a lado, na mesma direcção". Para que um relacionamento funcionar, é necessário que os membros do casal sejam relativamente autónomos um do outro, sem precisarem de constantes sinais de apreço e atenção. Será isso amor? Ou um liquidificador para a relação, que acabará por se converter, mais cedo ou mais tarde, numa "ralação"?

Sente que o seu companheiro não satisfaz o seu desejo de intimidade, e se farta de si. E a Mariana, como se sente face a isso? Centrar-se exclusivamente no que ele sente ou acha pode ser uma forma de lidar com o eventual sentimento incómodo de dependência emocional (o de não conseguir evitar ser "a má da fita").

Se deseja ter uma relação estável, comece por focar-se um pouco nas suas inseguranças e ansiedades e aprender a lidar com elas, na primeira pessoa. De pouco servem as tentativas de moldar-se ao seu parceiro, em alternativa a moldá-lo a si. Em qualquer dos casos, estará sempre à espera que o outro lhe devolva um sentido de si, por este não estar bem alicerçado à partida. Quanto mais insistir nessa via, mais se agravará o cenário que pretende evitar.

Sair deste dilema passa por ter mais consciência e domínio das suas emoções. (mesmo que para isso tenha de recorrer a ajuda profissional ). Tal vai exigir-lhe algum esforço, sobretudo se a sua tendência for "apostar todas as fichas" numa relação amorosa, como a única fonte de alimentação /realização. Os casais "fusionais" ou "dois-em-um", podem gerar altos níveis de entropia na vida a dois. É a tal sensação de sufoco.

A vossa relação precisa de espaço livre (até os computadores precisam de espaço no disco, para poderem funcionar em rede!). Ou seja, requer de cada um que tenha interesses próprios, amigos ou projetos não comuns, mais não seja para poderem partilhar coisas novas e alimentar a vida a dois, de forma mais criativa.

Como diziam os jovens de um anúncio a um perfume, há alguns anos, "Eu só desejo aquilo que não preciso". Só então fará sentido dar um passo em frente (equacionar o tema da parentalidade).