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Paralisada pelo medo

Clara Soares

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Clara Soares responde a questões sobre psicologia. Envie as suas perguntas para visaosolidaria@impresa.pt

Sou uma jovem com 23 anos e conclui o meu curso superior há um ano. Desde então estou desempregada, porque não encontrei nenhuma oportunidade na minha área de formação.

Sou uma pessoa muito ansiosa, com três depressões diagnosticadas nos últimos 4 anos. Tenho ataques de pânico frequentes, baixa autoestima e medo de tudo e mais alguma coisa. Sinto-me bloqueada e não sei o que quero: o que fazer, como contornar a situação de desemprego, como lidar com os meus pais que todos os dias me fazem sentir mal culpada por não trabalhar. Basta eu querer sair de Portugal, lá tenho boas oportunidades de emprego na minha área. Este é o meu dilema: por um lado sinto que posso mudar a minha vida e iniciar-me finalmente no mercado de trabalho, mas o medo consome-me completamente. Medo do desconhecido, de ir sozinha, de não conseguir, de ter que desistir, de não ser competente, de ficar doente, das saudades que posso vir a sentir, enfim... Como sair desta rede de medos e ganhar coragem para fazer coisas na minha vida?

Ana C.



Em qualquer etapa da vida, cada passo que em frente tem como consequência, algo que se deixa, inevitavelmente, para trás. Ao assumir uma opção, há sempre outras que ficam excluídas, ou condicionadas. Talvez seja aqui que reside o bloqueio, na consciência de ter de escolher. Se a sua área de formação a cativa e se consegue visualizar-se nela, estar motivada para esse novo recurso que tem, já é meio caminho andad. Cá (noutra área), ou lá fora (naquela em que se formou), a prioridade é vencer o medo e não há como contorná-lo.  

        

As depressões e as crises ansiosas que refere levam-me a supor que está a ser acompanhada, com medicação e psicoterapia. Não estando certa de ser esse o caso, aproveito para informar que existem técnicas para lidar com os sintomas (ataques de pânico e ansiedade), como as de treino autogénico de relaxamento e de hipnose clinica. Porém, é provável que necessite de uma abordagem terapêutica mais diferenciada (cognitivo-comportamental ou psicanalítica).

 

A relação terapêutica (sessões com regularidade média semanal) é o espaço ideal para "desbloquear" o que quer que esteja na raíz do medo que tem de cair em desgraça, antes, sequer, de abrir as asas. Desde que exista empatia e confiança pelo(a) profissional de saúde, é aí que poderá equacionar os sentimentos de culpa e angustia que a consomem (Por não aceitar a oportunidade lá fora? Por medo de desagradar aos pais? Por sentir-se emocionalmente indefesa, "pequenina", e tudo lhe parecer uma ameaça, fora de portas?)

 

Um dos ganhos mais valiosos no início da vida adulta é a possibilidade de dar forma à sonhada autonomia e conquistar um espaço além do familiar. Sair da zona de conforto gera adrenalina que, em doses q.b., estimula a acção e prepara o organismo para assumir riscos (iniciativas). Testar-se e ensaiar competências é um processo que se faz ao ritmo da preparação psicológica (e das condições biográficas) de cada um.

A não esquecer:

- O erro também faz parte da experiência (tanto pode ver o que aprende com ele como usá-lo contra si, sendo o seu próprio carrasco!)

- Comparar-se com outros ou agir em função exclusiva das expectativas deles é um esquema mental a por de lado