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Fiquei viúvo. E agora?

Clara Soares

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Clara Soares responde a questões sobre psicologia. Envie as suas perguntas para visaosolidaria@impresa.pt 

Há um ano que perdi a minha mulher. Acompanhei-a durante a fase terminal e contei com a ajuda dos médicos e da pessoa que contratámos, a pedido dela, para que pudesse ficar em casa depois de sair do hospital, quando já não havia esperança de recuperação do cancro. Acima de tudo, tive o apoio moral da minha filha e dos amigos. Os primeiros meses de luto foram muito difíceis. Mudei o quarto, dei alguns pertences dela, guardei outros no sótão da casa e, por sermos católicos praticantes, tenho contado com a ajuda do pároco local. Reformei-me da função pública há seis meses e todos planos que tinha feito com a minha mulher para este período de vida esfumaram-se. Tenho a graça de ter pessoas que me acarinham e tornam os meus dias menos vazios. Aconselham-me a sair mais, a retomar a minha vida, mas a verdade é que me sinto cada vez mais só e sem vontade de sair. Embora me sinta jovem de espírito, as saudades das rotinas de 26 anos de casamento impedem-me de ver com bons olhos a ideia de conhecer outras pessoas, por sentir, ainda, que estaria a trair o amor pela minha mulher, que amei profundamente. Sento-me à mesa para jantar e olho para o lugar que era dela e choro. Ela era a minha melhor amiga. Não gosto de viver sozinho. E agora?

Manuel P., Portimão 

O luto é uma experiência que toca a todos nós, mas cada um o experimenta à sua maneira. Não é fácil acordar, manter rotinas e adormecer sozinho, após tantos anos de convivência, especialmente numa relação conjugal satisfatória e gratificante. Há memórias demasiado presentes e uma ausência que persiste nos gestos quotidianos mais simples, apesar de todos os esforços para virar a página e prosseguir com o que se entende por retorno à normalidade. Ninguém pode substituir o lugar deixado vago no seu coração. Mas restaurar o desejo de conduzir a sua vida é possível. Mesmo apesar dos sentimentos de revolta, tristeza e abatimento, inevitavelmente associados à perda do ser amado e dos projectos sonhados a dois.

O receio de poder estar a trair a sua companheira sinaliza a necessidade de fechar assuntos pendentes. As conversas tidas com a sua mulher, antes de ela partir, podem fornecer-lhe pistas para reorganizar, ao seu ritmo, esses assuntos (administrativos e legais e, sobretudo, os acordos emocionais tácitos, ou explícitos, entre si e ela, na fase terminal) e facilitar o processo de aceitação. Começará a dar-se conta disso quando se sentir pacificado com tudo o que de bom guarda da sua vida em comum, que irá sempre consigo para onde quer que vá e em todas as decisões que tome. Quando esse espaço interno já não correr o risco de ser "desarrumado" pelo mundo exterior, ou substituído por ele, só então deixará de sentir-se ameaçado diante da possibilidade de voltar a sonhar, a solo ou com outro alguém.

 

Todos temos direito às nossas escolhas. Se for um desejo seu retomar a vida acompanhado, a primeira coisa a ter em conta é não boicotar esse sentimento genuíno (por exemplo, imaginar-se, aos olhos dos que lhe são próximos, como "o viúvo alegre", que não sabe preservar o legado do bom que a vida lhe deu, ou que soube construir).

Entretanto, é altura para ponderar o que, por variadas razões, foi sendo adiado e queria ter feito. Talvez envolver-se em voluntariado na paróquia, ensaiar novas rotinas na biblioteca local ou na junta de freguesia. E manter algumas das rotinas que lhe proporcionam conforto e segurança e o façam sentir-se útil e com valor. O maior de todos: o de sentir-se amado e livre para amar, por já ter sido amado e amar também. Embora de novas maneiras.