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"Como se lida com um dominador?"

Clara Soares

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Clara Soares responde a questões sobre psicologia. Envie as suas perguntas para visaosolidaria@impresa.pt

Eu tenho um problema sério com o meu pai. Ele é sempre o maior e os outros nunca prestam. Ou estamos todos de acordo com ele ou então ele enerva-se, começa a falar alto e levanta a mão. Insulta tudo e todos e depois é como se não fosse nada com ele.

A minha mãe arranja desculpas e diz ele não é má pessoa, tem é mau feitio. Eu não aceito isso e quanto mais ele ameaça bater-me, menos o respeito.

Como se lida com um dominador? Dizem que o mais importante na vida é a família. Com esta, não vejo maneira, porque me sinto só e desligado.

Pode ajudar-me?

Miguel J.

Desconheço a sua idade e se tem amigos ou outros familiares que estejam a par da situação. Talvez seja boa ideia ter um telefone de emergência à mão e o de uma ou duas pessoas da sua confiança para o caso de ser necessário recorrer à ajuda deles, numa situação crítica. E sim, é verdade que os relacionamentos mais próximos tanto podem contribuir para nos sentirmos mais fortes e de bem com a vida, como conduzir a um profundo sentimento de solidão e alheamento na relação com o mundo. Pelo que afirma, a vossa união familiar parece assentar num estilo de comunicação desigual, em que um exerce domínio sobre os outros e se mostra incapaz de vê-los como iguais e merecedores de respeito e atenção. 

Quebrar o ciclo da "ameaça, violência, reconciliação" é algo com que muitas pessoas têm de confrontar-se, seja numa relação conjugal, entre pais e filhos e, até, entre amigos. A velha estratégia de "por água na fervura", fazer de conta que não é nada e procurar agradar ou esquecer a todo o custo, acaba por ter custos a médio e longo prazo, que são maiores do que a "vítima" possa pensar. Se já deu consigo a adotar uma destas medidas, terá certamente concluído que o seu pai não mudou nem lhe agradeceu por isso. Pior, talvez tenha até aumentado o grau de desvalorização que aplica a si. E o faz sentir-se inadequado e só. Com a impressão de que "nada chega" e o que quer que faça é sempre insuficiente.

Caso seja maior de idade e já tenha meios próprios de subsistência, a sugestão seria afastar-se do ambiente familiar que o deixa em baixo de forma e sentimentos de inferioridade, anulação ou alheamento. Não sendo o caso, converse com a mãe e com o pai, separadamente, e dê-lhes a conhecer os seus próprios limites. Defina o que é aceitável e o que não o é, para si, na relação com ambos. E seja firme quanto a isso. Sempre que "o caldo entornar" e o esquema de funcionamento familiar estiver a dar cabo de si, saia de cena e não se submeta ao papel de refém. No limite, recorra a serviços de apoio à vítima ou outros para ter um espaço seguro onde possa ser como é, na sua pele, sem estar sujeito às distorções e condutas impostas pelos seus familiares.