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Amigos coloridos: sim ou não?

Clara Soares

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Clara Soares responde a questões sobre psicologia. Envie as suas perguntas para visaosolidaria@impresa.pt

Recentemente abri o meu coração a um amigo meu e fiquei preocupada. Ele acredita que sofre de uma doença rara que o faz não ter sentimentos profundos por ninguém. Nunca demos nenhum beijo, mas ele não é frio: dá-me abraços e pega na minha mão mesmo quando os amigos estão por perto! Não liga muito ao telemóvel, mas já mantivemos conversas de umas 4 horas e já mandou sms em vez de ser eu (coisa rara!) Estivemos muito próximos antes de ele me contar isto tudo. Quando lhe contei dos meus sentimentos, ele ficou assustado e sugeriu sermos friends with benefits. Disse que o que se passou foi só atração! Estou indecisa, porque ele mantém interesse em mim, mas eu não quero iludir-me muito! Ele é mesmo doente? Ou tem medo que realmente possa vir a gostar de mim e não me quer deixar com altas expectativas?

Sara L., Braga

O que melhor define as amizades "com benefícios" é o seu registo: no strings attached. Sem expectativas. Neste tipo de "contrato", a ideia é tirar partido do prazer (benefícios) sem as "chatices" (compromisso). Não se trata de uma doença, antes de um acordo de conveniência. Por isso se chama "colorida", já que "dá jeito" flirtar, ou ter algo mais (vida sexual ativa) com alguém que não é completamente estranho e, por isso, relativamente seguro (ou menos arriscado). 

Situações como a que descreve são mais prováveis em fases de experimentação - quando ainda não existe uma intenção de avançar para um projeto a dois - ou de transição - na sequência de uma separação, em que não há, ainda, motivação para se envolver novamente. Pode, por isso, acontecer em qualquer idade, MAS... são precisos dois! Quando assim não for, há sempre um que se submete e acaba por ficar com "preocupação", "indecisão", ou à procura de pretextos que neguem a realidade que reluta em aceitar.

Suponho que ambos são adultos (embora não refira as idades) e nenhum está em posição de "coitadinho". A questão não passa por "salvar" alguém "doente". Antes, libertar-se de uma ilusão que - como reconhece - tem dificuldade em largar.

Por mais duro que lhe pareça, importa colocar a questão do avesso, usando o pronome "eu" em vez de "ele". Terá medo de gostar dele e possibilidade - grande - de não ser correspondida, assusta-a deveras? Será isso "a doença"? A manter-se nesta situação com sofrimento (magoada), equacione eventuais benefícios que ela possa estar a ter (sentir-se "a compreensiva", a "adulta cuidadora"). Talvez esteja na hora de perceber quais as suas necessidades nesse processo, mesmo que não seja através dele que as vai realizar.