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"A minha namorada corre perigo?"

Clara Soares

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Clara Soares responde a questões sobre psicologia. Envie as suas perguntas para visaosolidaria@impresa.pt

Numa saída recente com amigos, conheci uma rapariga linda. Ando com ela há duas semanas. Quando começámos, não achei estranho ela insistir comigo para manter a luz do quarto apagada. Um dia fomos à praia e ela quis ficar com a sweatshirt vestida. Achei que ela estava a esconder-me alguma coisa, mas disse-me que se tinha esquecido do biquíni em casa. Até que numa destas noites, quando estávamos num bar com a beber copos, puxei-a para mim, a brincar, e magoei-a sem querer ao agarrar-lhe um dos pulsos. Nesse momento, vi que tinha cicatrizes. Levei-a para o carro, quis saber o que se passava, mas ela mudou logo de assunto. Tentei falar disso noutra altura, mas não acredito na explicação dela: uma simples marca de um acidente. Não voltámos a falar sobre isto, mas sinto-me mal e não sei o que fazer. Já andei a ver algumas coisas na net e fiquei alarmado. Olho para ela e não vejo uma pessoa com problemas. Até me parece muito calma e descontraída, mas talvez um pouco tímida. A minha namorada corre perigo? A cicatriz é para chamar a atenção? O que posso fazer para ajudá-la? 

Jorge S., Mafra

 

A situação que relata sugere um comportamento de automutilação. A sua namorada pode não estar com pensamentos suicidas, embora seja verdade que, também nestes casos, surge como um dos sintomas. Mas, definitivamente, é para levar a sério. Não se trata de uma chamada de atenção ou, como por vezes se pensa, erradamente, um gesto de manipulação. Pelo contrário. As pessoas que têm atos autodestrutivos sentem vergonha e tendem a mantê-los secretos, bem longe dos olhares dos outros. Especialmente os mais próximos.

Fazem-no por sofrerem em silêncio uma angústia que não conseguem aliviar e procuram fugir dela e dirigem a dor para algo palpável, que lhes dá a sensação, ainda que temporária, de controlo, sobre pensamentos, emoções e memórias ameaçadoras (ou de desintegração pessoal). Neste caso, os cortes auto-infligidos são a válvula de escape, talvez a única saída que se encontra à mão, num momento de maior aflição (e sentimento de que os outros não podem compreender).

Se suspeita que ela se automutila, é importante falarem sobre isso, por mais difícil que seja. Ignorar ou fazer de conta que não é nada de mais pode poupá-lo à descoberta dos detalhes de um segredo que pode revelar-se perigoso, ou que envolve um grau de risco. Agora, esse segredo também é seu, mesmo que não conheça os contornos. Condutas deste tipo traduzem, com alguma frequência, experiências precoces de negligência, separação ou abandono, mesmo que circunscritas a um ou dois episódios.

O evitamento dela pode deixá-lo frustrado ou numa pilha de nervos. Talvez seja preciso munir-se de alguma paciência para voltar à vaca fria. Evite, sim, o confronto direto. Aja com cuidado e pense no que vai dizer - e como - antes de abrir a boca. Faça-o num ambiente seguro, sem grande exposição (esqueça o bar com amigos). Se as pistas da conversa apontarem para os indicadores já referidos, uma psicoterapia é aconselhável. Além de permitir aliviar eventuais fardos ou feridas pessoais, permite ensaiar outras formas de relacionar-se com o mundo, menos autodestrutivas e, seguramente, mais libertadoras.