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'Raramente nos lembramos do sofrimento das mulheres que escorrem as últimas gotas de um balde de água'

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Imagem de arquivo da recolha de água em Catenbe, Moçambique

José Caria

Esta tarde é apresentado o projeto MOMA, que pretende contribuir para o acesso à água potável em Moçambique. A VISÃO Solidária falou com Manuela Tavares, uma das mentoras do projeto

Os dados da ONU revelam que 89% da população mundial tem acesso a água potável. Também nesta história é possível ver o copo meio cheio ou meio vazio. Do outro lado da barricada estão 783 milhões de pessoas que vivem sem acesso a água limpa.

O projeto Mulheres e Água em Moçambique (MOMA), que será apresentado estar tarde no espaço Roca Lisboa Gallery, pretende contribuir para alterar esta realidade.    

O encontro conta com a presença de Carlos Garriga (membro da Fundação We Are Water - uma das promotoras do evento), Luís Ribeiro (Instituto Superior Técnico), Edite Reis (Grupo Género e Água), Jaime Melo Batista (ERSAR), Alexandra Serra (Águas de Portugal) e Patrícia Lopes (autora do livro A missão, diário de uma médica em Moçambique).

A VISÃO Solidária falou com a investigadora em estudos sobre mulheres Manuela Tavares, que também faz parte da direção da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) e é membro do grupo Género e Água, que irá desenvolver o MOMA no terreno.

O que é o projeto MOMA?

O projecto MOMA [Mulheres e Água em Moçambique] vai intervir na região de Gilé de Moçambique, onde há grandes dificuldades no acesso à água, para além de graves problemas de saúde e alimentação. A primeira fase de estudo de diagnóstico foi aprovada pela Fundação Calouste Gulbenkian. O Grupo Género e Água vai intervir junto das comunidades, em especial das mulheres, no sentido de dotar essa região de maior acessibilidade à água e de contribuir para que as mulheres tenham papel nas suas comunidades na gestão e controlo dos recursos hídricos.

Porque é que optaram por envolver apenas o sexo feminino no projeto?

O projeto procura envolver as comunidades, sabemos que não vale a pena fazer furos de água se as populações locais não souberem gerir esses recursos. É sobre as mulheres que recai a obrigação de ir buscar água para as famílias, percorrendo grandes distâncias para obter este recurso fundamental. Por isso, serão elas que estarão em melhores condições para gerir o acesso à água. O tempo perdido a ir buscar água representa um pesado fardo para as mulheres. Nas zonas rurais de Moçambique, as mulheres passam, em média, entre 15 a 17 horas semanais a ir buscar água. É muito usual ver as mulheres percorrerem mais de 10 quilómetros durante as estações secas.

Qual o efeito multiplicador do acesso à agua potável?

O efeito multiplicador faz-se sentir na diminuição de doenças que têm como origem as contaminações pela água, na maior libertação das jovens raparigas para ir à escola, no tempo para as mulheres poderem exercer outras atividades que as tornem mais autónomas e intervenientes nas comunidades locais.

É fácil sensibilizar as pessoas para a escassez da água ou continua a parecer um problema distante aos olhos dos habitantes dos países desenvolvidos?

Quando abrimos as torneiras das nossas casas, raramente nos lembramos do sofrimento das mulheres que escorrem as últimas gotas de um balde de água para dar aos filhos, antes de saírem para uma caminhada de cerca de dez ou mais quilómetros para irem buscar outro balde de água.