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Porque morrem os bombeiros?

Atualidade

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Oito baixas em combate. E, de quartel em quartel, agigantam-se as críticas: ir sempre para a frente do fogo, a qualquer custo, em vez de flanquear o ataque, pode ser trágico

Cinco queixas do costume

  • Floresta abandonada

  • Falta de prevenção e fiscalização

  • Meios de combate deficitários

  • Condições operacionais difíceis

  • Comando e formação desadequados

"Nos últimos dias, quem nos tem valido são as populações. Mesmo depois de perderem tudo, ainda conseguem partilhar comida connosco", desabafa Rui Silva, presidente da Associação Portuguesa dos Bombeiros Voluntários. Este antigo comandante tem sido uma das vozes mais críticas da forma como, em Portugal, se enfrentam os fogos florestais. Mas não é o único. Um pouco por todo o País, as queixas correm de quartel em quartel. São, por agora, abafadas pela dor do luto (oito bombeiros mortos em combate), e pelo desgaste provocado por um dos verões mais violentos de que há memória. As críticas, porém, têm crescido de tom, entre os cerca de 31 mil bombeiros no ativo, dos quais 90% são voluntários.

"Os bombeiros não têm de ser guerreiros, mas sim guerrilheiros", diz Rui Silva. "Num terreno inclinado como o da serra do Caramulo, com uma vegetação muito densa, era preciso mudar de estratégia, apostar num ataque indireto, enfraquecendo o fogo na retaguarda, abrindo caminhos com máquinas de rasto. Nunca se deve estar na cabeça do incêndio, onde se geram ventos violentos e imprevisíveis, num terreno tão acidentado. Nem o melhor atleta conseguia escapar a estas chamas. Podiam ter morrido todos." O certo, acrescenta este dirigente, é que, na passada sexta-feira, 30, "o comando operacional deu instruções para se mudar a tática, assumindo-se uma postura mais defensiva, em vez de se tentar preservar a qualquer custo florestas e casas. E, desde então, não se verificaram mais incidentes..."

A proliferação de fogos pelo País, a uma média de cerca de 300 por dia, terá deixado a nu as dificuldades com que se deparam os homens e mulheres que vão para o terreno combater os fogos florestais. "Registámos um número elevado de incêndios, em pontos diferentes", diz Pedro Lopes, presidente da Autoridade Nacional de Proteção Civil. "Muitas vezes, as frentes tiveram de ficar desguarnecidas e ganharam dimensões maiores, porque os bombeiros foram defender as povoações. Se as populações, as juntas de freguesia e as câmaras municipais tivessem o cuidado de manter os terrenos limpos e com caminhos abertos, juntamente com um ordenamento da floresta, nada disto tinha acontecido." Pedro Lopes dá o exemplo do fogo em Miranda do Douro, que vitimou um bombeiro e feriu outros cinco, logo no primeiro dia de agosto. "Tratava-se de uma zona de mato rasteirinho, não havia justificações para o fogo ganhar as dimensões que acabou por assumir", analisa.  

Misturas explosivas

À frente do organismo que gere e financia o combate a incêndios, Pedro Lopes aponta a ausência de medidas de prevenção e de vigilância como grande responsável pelos graves acidentes e a descomunal dimensão de área ardida. 

"Embora sem picos de calor como no verão de 2003, que foi um dos mais trágicos, tivemos uma chuva tardia que favoreceu o crescimento da vegetação; e, depois, vivemos um verão quente e prolongado, com baixos níveis de humidade e ventos secos, que potenciam a capacidade de combustão das florestas", explica Xavier Viegas, presidente do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais. Há mais de 30 anos que este engenheiro se dedica a estudar o comportamento do fogo e, naquele centro, associado à Universidade de Coimbra, todos os anos dezenas de bombeiros são preparados para conhecer melhor as regras de segurança e de combate aos incêndios florestais. Tal como já aconteceu em anos anteriores, Xavier Viegas e a sua equipa foram convidados a participar na comissão encarregada de investigar as mortes que ocorreram este verão. Embora as averiguações estejam por concluir, o especialista afirma não ter dúvidas de que é nas condições do terreno que reside a explicação daqueles acidentes. E, por isso, acrescenta, é tão importante a formação.

Medidas urgentes

"Não concordo que o problema deste ano tenha sido a tática", contrapõe José Ferreira, presidente da Escola Nacional de Bombeiros. "O combate ao incêndio do Caramulo, por exemplo, foi comandado por um homem com muita experiência de terreno. Os operacionais são muitas vezes confrontados com a necessidade de tomarem decisões em situações limite. Quem está no terreno ou consegue aguentar o combate e evita uma catástrofe, ou falha e alguém morre." À semelhança da maioria das serras portuguesas, a do Caramulo é vista como traiçoeira, apresentando numerosos perigos. Com inclinações íngremes, é frequente ocorrer o efeito chaminé, que acontece em zonas montanhosas e que determina que o calor libertado pelo fogo crie novos ventos, muitas vezes de sentido contrário. Em condições de elevada temperatura e baixa humidade, ganha uma rápida aceleração, aumentando o efeito devastador das chamas. No Caramulo, José Ferreira estima que os "novos" ventos tenham atingindo 10/15 km por hora, anulando, quase por completo, as hipóteses de fuga. A juntar a estes efeitos, a serra sofre de um enorme desordenamento florestal, acrescendo que o combate com meios aéreos está muito limitado, devido às neblinas matinais e à existência de numerosos "lugarejos" dispersos pela região. No próximo ano, a Escola Nacional de Bombeiros, responsável pela formação inicial e por ações de especialização, pretende treinar estes homens e mulheres em situações com fogo real, embora José Ferreira garanta que a preparação atual já é bastante exigente e completa.

O abandono das terras, a proliferação de eucaliptos (considerada uma das espécies mais traiçoeiras, devido aos reacendimentos e à libertação de resina, facilitando a propagação das chamas), e a falta de sensibilização das populações e de punição dos incendiários ajudam a agravar uma situação que parece não ter fim à vista. Basta pensar que 40% dos incêndios florestais são provocados por negligência, e que se contam pelos dedos os condenados por fogo posto que cumpriram penas de prisão efetiva, apesar de a PJ anunciar cada vez mais detenções. "É inadmissível", resume Pedro Lopes, o presidente da Autoridade Nacional de Proteção Civil.

"O desordenamento da floresta tem décadas", insiste o presidente da Associação Portuguesa de Bombeiros Voluntários, Rui Silva. "Há muito que o clima está a mudar, tendo-se os verões tornado mais secos. Mas temos de adequar as formas de combate à realidade, em vez de atribuir as culpas a estes fenómenos." Entre os bombeiros, é comum a ideia de que o atual modelo está esgotado, sendo preciso apostar mais no apoio ao combate. "As autarquias, que são as responsáveis pela alimentação e fornecimento de combustível, nos locais dos fogos, têm de estar preparadas para acolher 500 ou mais operacionais", diz um comandante na reserva, que pede o anonimato. "E o Exército devia instalar ali tendas de campanha, para o descanso do pessoal. E devia estar sempre alguém de vigia e que fosse dando indicações sobre a evolução do fogo. Há mesmo muito para mudar."

Rui Silva, o presidente dos Voluntários, afirma: "Sempre que vejo colegas a dormir no chão, sinto-me envergonhado e tenho vontade de chorar. Nos últimos dias, muita coisa melhorou, mas, ainda assim, chegam-me relatos chocantes, como o de um bombeiro a quem foi dada uma sandes e um sumo, e uma folha para assinar, comprovativa de que tinha recebido o almoço. E disseram-lhe que fosse comer para longe, de maneira a não aparecer nas câmaras da TV." Com um concurso para o fornecimento de equipamentos individuais de proteção a decorrer, e que deverá permitir a todos os bombeiros receberem, até ao próximo ano, melhores fatos, as estruturas aguardam, agora, outras condições de trabalho. "Hoje, combatemos os fogos com fatos de algodão, as botas, por vezes, descolam-se com o calor e nem sequer temos proteções respiratórias, apesar de estarmos sujeitos a elevadas quantidades de fumo e poeiras, que nos deixam doentes para o resto da vida", critica Rui Silva. O presidente dos Voluntários não faz por menos: espera que se olhe para este "mau ano" e que se mude "tudo".