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Mais de 24 mil Rotários vão invadir a cidade de Lisboa e deixar "um impacto de 100 milhões de euros"

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O presidente da Comissão Anfitriã de Rotary, Luís Miguel Duarte, calcula que o impacto da conferência será de 100 milhões de euros

Patrícia Faria

Este ano, a convenção da maior ONG do mundo realiza-se em Portugal. A VISÃO Solidária falou com o presidente da Comissão Anfitriã de Rotary, Luís Miguel Duarte, sobre o impacto do evento que traz uma Nobel da Paz a Portugal

A contagem decrescente já começou. A Convenção Anual do Rotary International, uma das maiores ONG do mundo, realiza-se de 23 a 26 de junho, em Lisboa.

Além de reunir Rotários (nome dado aos ativistas da organização) de todo o mundo, o encontro também trará nomes de relevo na área da solidariedade social e ambiental a Portugal. Lisboa - Um Porto para a Paz, é o tema da convenção que estará centralizada na Feira Internacional de Lisboa e no pavilhão Meo Arena, ambos no Parque das Nações.    

A ativista pela paz Leymah Gbowee, galardoada com o prémio Nobel da Paz em 2011 (juntamente com a atual presidente do seu país, a Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, e a ativista iemenita Tawakel Karman) é uma das oradoras do encontro. A neta de Jacques Cousteau, Céline Cousteau, também virá a Portugal em representação da fundação do avô. Assim como a britânica Jane Goodall, embaixadora da boa vontade da ONU, mais conhecida pelos seus estudos com chimpanzés. A atriz Archie Panjabi, conhecida pelo seu papel de investigadora na série The Good Wife, também estará em Lisboa enquanto embaixadora da organização no combate à poliomielite, uma das principais batalhas do Rotary.

O apresentador de TV Jorge Gabriel e o médico e professor Fernando Pádua (que foi bolseiro do Rotary) são as personalidades nacionais que vão participar na campanha publicitária que pretende alertar os portugueses para a importância da erradicação da doença.  

A ONG chegou a Portugal em 1926. Atualmente, reúne mais de 3 mil membros em todo o território nacional. A nível global, o Rotary International conta com 1,2 milhões de pessoas.

A convenção não é aberta ao público em geral, só os Rotários e seus convidados podem participar mas, de acordo com a organização, irá injetar cerca de 100 milhões de euros na economia nacional.

À VISÃO Solidária, o presidente da Comissão Anfitriã de Rotary, Luís Miguel Duarte, 40 anos, falou sobre o papel dos Rotários em Portugal e do "espetáculo" que será o encontro.

Qual o significado de a 104.ª edição do encontro do Rotary International se realizar em Lisboa?

Todos os anos realizamos este encontro que reúne rotários de todo o mundo. Neste momento, já temos 24 500 inscrições de 163 países diferentes. A convenção serve para os rotários perceberem o que andamos a fazer pelo mundo. As nossas sessões plenárias, com oradores de topo, ajudam a estimular e a motivar os participantes. Também teremos a Casa da Amizade, onde estará exposto todo o trabalho que o Rotary faz em Portugal e no mundo.

O que é que vai acontecer durante o encontro?

Vai ser uma coisa que nunca foi feita em Lisboa. Nunca houve um congresso deste género e com esta dimensão na cidade. Vão acontecer muitas coisas ao mesmo tempo. A abertura, se o tempo o permitir, terá dois paraquedistas a trazerem a bandeira de Portugal e a do Rotary. Também haverá um concurso de canto lírico com 24 jovens de 17 países no Teatro Nacional S. Carlos. Os primeiros três vencedores vão receber uma bolsa no valor de 21 mil euros. No dia seguinte, teremos os Il Divo acompanhados pela Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Tuna Académica a desfilar com as bandeiras dos 204 países onde o Rotary esta representado. Nos outros dias teremos as palestras. Infelizmente, o único orador português será o Dr. Jorge Sampaio. O senhor primeiro-ministro não estava disponível para vir à convenção, apesar de o evento representar um impacto na economia de 100 milhões de euros. Além de promover o destino Portugal.

Que atividades desenvolvem especificamente para Portugal?

O nosso maior projeto é a Fundação Rotária Portuguesa, que é um projeto conjunto de todos os clubes rotários. Fazemos muitas coisas diferentes, mas eu destacaria a atribuição de bolsas de estudo, ao ensino secundário e superior, como uma das mais importantes. A fundação já tem 56 anos e, todos os anos, atribuímos, em média, 500 a 600 bolsas. Temos muitos projetos de apoio a IPPS, temos as universidades seniores, também recolhemos tampinhas para cadeiras de rodas. O Rotary Club de Sintra, nos últimos dois anos, já entregou 750 cadeiras de rodas.

Qualquer pessoa pode tornar-se um Rotário?

Não. Nós não somos elitistas, mas gostamos de ter clubes com poucos membros. Em Portugal, existem 158 clubes com uma média de 20 pessoas cada um. Procuramos profissionais que acrescentem algo mais ao que fazemos, ou seja, não procuramos uma adesão em massa. Queremos pessoas com qualificações que possam ser postas ao serviço dos outros. Normalmente, a entrada é por convite, mas as pessoas também se podem propor e o clube da sua zona vê se encaixam no que a organização precisa.

Como é que garantem a vossa sobrevivência financeira?

Temos autofinanciamento através da quota que todos os membros pagam. Cada clube fixa o valor da sua quota. Depois, temos muitas doações de entidades externas. Nos últimos dois anos, a Fundação Bill e Melinda Gates doou 350 milhões de dólares para o combate à poliomielite. Aliás, na convenção de Lisboa vamos ter novidades sobre novas doações...

A erradicação da poliomielite é um dos principais objetivos da organização. Acredita que vão conseguir cumpri-lo em breve?

A data de erradicação da poliomielite foi revista e está, agora, estabelecida para 2014. Na verdade, ainda não se trata da erradicação, mas da paragem da transmissão do vírus. Mesmo que não se registem casos novos, tem de haver um período de quatro anos para que a doença seja considerada erradicada da humanidade. Conseguir estancar o vírus já é muito bom.

Quando a poliomielite estiver erradicada a organização vai dedicar-se a outra batalha?

Somos muito bons a impor desafios a nós próprios. Tenho a certeza que, a seguir à Polio, vamos ter um desafio maior. Eventualmente, poderá ser a alfabetização da humanidade. Isso seria dar liberdade àqueles que não tiveram instrução. Esta é uma sugestão minha, não é algo que esteja decidido. Por outro lado, também não podemos perder a rede que criámos em torno da erradicação da poliomielite, ela pode ser usada para a prevenção de outras doenças. É uma grande rede de saúde pública que fica disponível para prevenir outras doenças.

Qual é o tipo de solidariedade que o Rotary procura fazer?

Temos uma visão que não é assistencialista. Não gostamos muito de abraçar projetos em que apenas angariamos dinheiro e depois o entregamos. Temos uma visão, não tanto humanitária, mas mais humanista. Somos muito focados no ser humano, na sua valorização e naquilo que podemos oferecer para que as IPPS façam melhor o seu trabalho. Por exemplo, o Rotary Club de Évora implementou um projeto de painéis fotovoltaicos numa instituição de apoio a cidadãos deficientes mentais e ajudou-os a diminuírem a fatura da eletricidade de 20 mil euros para um décimo desse valor.

Em Portugal, quais são os principais desafios?

Neste momento, temos dois tipos de problemas que desembocam num problema maior... O primeiro problema é a situação económica que temos, isso é, por si, uma chaga social. Depois temos outro problema que converge com este e o torna maior: muitas instituições que dão apoio às pessoas mais carenciadas têm uma procura cada vez maior, devido ao aumento do desemprego. Por outro lado, têm cada vez menos apoios. Conhecendo a realidade social, percebe-se que quem está no terreno e presta a verdadeira assistência não é o Estado, nem são as câmaras, é uma rede de IPSS que faz um trabalho fabuloso. Agora, se aumenta a procura e lhes diminuem os fundos, elas vão deixar de conseguir prestar esses cuidados. Espero que isto não chegue a acontecer. Nós vamos fazer a nossa parte e temos a vantagem de sermos uma organização internacional. Nesta altura, não há grande disponibilidade em Portugal para termos uma grande angariação de fundos, mas podemos recorrer aos clubes de outros países para ajudarem as nossas instituições. Por exemplo, temos um clube no Algarve que conseguiu comprar um camião de transporte de alimentos de 60 mil euros para o Banco Alimentar de Faro por 2500 euros. O resto do dinheiro veio dos EUA.

O Rotary consegue congregar muçulmanos, hindus, cristãos, ateus, pessoas de direita, de esquerda... E estão todas unidas sob o mesmo desígnio. Sinceramente, não conheço outra organização que consiga fazer isto. Esta diversidade é a riqueza do Rotary.