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Emigração: Elas tratam de tudo

Atualidade

Marcos Borga

Duas amigas criaram a Ei, uma loja que presta serviços à comunidade migratória. A papelada para transporte de animais é o mais requisitado

'Quando vamos para o Portugal?" É com esta pergunta insistente, de partir o coração a qualquer mãe, que o filho mais velho de Gilda Pereira, com apenas três anos, a enche de vontade de deixar Luanda, para onde foi como consultora empresarial, em 2009. E, por ironias do destino, é na Ei, uma estrutura de apoio ao emigrante e imigrante, que Gilda, 33 anos, vislumbra o seu bilhete de regresso. Basta fazer contas aos cerca de 200 mil portugueses que deixaram o País nos últimos três anos e percebe-se o otimismo só na sua lista de amigos do Facebook, um em cada quatro está emigrado.

A loja abriu na semana passada, nas lisboetas Avenidas Novas, mas o negócio já existia, desde maio, numa página virtual que conta, atualmente, com 8832 gostos. A ideia surgiu numa conversa por Skype (onde mais poderia ser?) entre Gilda e a sua grande amiga Inês Salvo, da mesma idade e com quem fez o Erasmus, durante o curso de Direito na Universidade Católica, em Lisboa, e a quem já recorria para lhe fazer alguns recados. "É um fardo para quem fica", nota Gilda, apesar de no seu caso apenas terem ficado os sogros.

A loja surgiu em Lisboa, depois de 50 mil euros de investimento particular, mas já tem planos de expansão para o Norte, Algarve e Madeira, seguindo a geografia dos pedidos feitos na internet.

'Fifty-fifty'

Os clientes tanto são de lá como de cá. E a lista de serviços propostos quase não tem fim pagamento de impostos, limpeza e manutenção de casas, agendamento de consultas, inscrição no Serviço Nacional de Saúde, só para citar alguns. O processo para transportar animais em viagens é o que mais lhes pedem.

Há muitos angolanos e brasileiros a viver em Portugal que recorrem aos préstimos da Ei. Ivonice Costa, 33 anos, cabeleireira, deixou Minas Gerais, no Brasil, há nove anos. Agora que quer ter nacionalidade portuguesa, foi pedir ajuda à loja. "A burocracia é muita e o meu tempo pouco", explica. Vale bem os 750 euros investidos (paga metade à cabeça e só quando tiver os papéis na mão saldará a restante dívida). Também já foram bater à porta de Gilda e Inês um par de amigos italianos que precisava de ajuda num processo de equivalências de estudos.

Na cave da loja, onde atendem os clientes, a decoração foi pensada ao pormenor. Há vários globos a lembrar que trabalham para todo o mundo, setas que indicam os principais destinos de migração e as distâncias a partir de Lisboa, um lenço dos namorados, andorinhas tipo Bordalo Pinheiro, galos de Barcelos estilizados, um avião de madeira em cima da mesa de reuniões.

Prestes a percorrer, mais uma vez, os 5 768 quilómetros que separaram o aeroporto da Portela da capital angolana, Alexandre Salazar, engenheiro civil de 34 anos, conta que a semana que esteve em Lisboa foi demasiado curta para perder tempo a tratar de uma multa por ter pago o selo do carro fora do prazo. Lá terá de ficar mais essa papelada nas mãos da Ei.

O segundo fôlego deste projeto já está a ser pensado para o próximo verão e será mais sentimental. "Os emigrantes têm muita necessidade de viver o País ao máximo enquanto cá estão e gostam de ser acarinhados ", justifica Inês. Por isso, se tudo correr bem, serão garantidos descontos em museus, festivais, jogos de futebol, hotéis e outros pequenos mimos para que as saudades sejam bem mortas.

É só pedir...

...e pagar pelo serviço.

Eis alguns dos pedidos mais comuns e as respetivas taxas:

Burocracias para transporte de animais - 35 a 150 euros

Obtenção de documentos - entre 25 e 30 euros

Gestão do património - 10% sobre o proveito do senhorio

Receção e envio de correio - 40 euros

Representação em assembleia de condóminos - 75 euros

Marcação de consultas e exames - 5 euros