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Palavra de cidadão de Paulo Guinote

Ano da Cidadania

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O professor e autor do blogue-bandeira dos professores conta como a cidadania se faz também na defesa de melhores condições para o exercício da docência

"No início do ano letivo, falamos sempre dos professores. Há até um Dia Mundial, a  5 de Outubro que assinala, para além da implantação da República, o Dia do Professor. É, por isso, uma data que se presta a discursos em que se mistura a defesa da ética republicana, o apelo ao exercício de uma cidadania plena e, por acréscimo, o elogio do papel da Educação na formação de cidadãos conscientes, críticos e capazes de fazer viver o regime democrático para além das suas limitações circunstanciais. 

Neste 5 de Outubro, o primeiro em mais de um século que não é considerado feriado, o discurso do Presidente da República tocou em todos estes pontos, acrescentando-lhes uma passagem sobre "o papel insubstituível dos professores".

É algo que fica bem, até porque há muito poucos dias um novo estudo comparativo a nível internacional (Global Teacher Status Index) revelou mais uma vez que a confiança dos portugueses nos seus professores está muito acima da que atribuem a outras profissões ou actores sociais e ao próprio sistema de ensino no seu todo. 

O problema é que a defesa da cidadania e o apelo ao seu exercício pelas gerações futuras não pode fazer-se ao mesmo tempo que se prolonga um constante ataque directo e indirecto às condições materiais e simbólicas do exercício da docência. Quando se apela ao papel que todos devem ter no suplantar da situação de crise e na necessidade da equidade dos contributos, é necessário que se reconheça que há quem já contribua há muito e de diversas formas, enquanto outros não o fazem.

Mais grave, quando outros procuram encontrar na Educação apenas o lucro, o negócio, faltando-lhes o sentido ético. Atravessamos um período conturbado no qual o relativismo dos conceitos impera e as palavras são usadas de modo instrumental, arremessadas como armas ocasionais e não como algo com um significado próprio. Liberdade, democracia, cidadania, são conceitos que vão sendo manchados a cada vez que são mal usados, truncando ou distorcendo o seu real significado.

Os professores têm como parte da sua missão ensinar e exemplificar o que eles significam, nem que seja do ponto de vista da História.  Mas, infelizmente, o tempo presente tinge de incredulidade os olhos dos alunos que, pelos exemplos quotidianos que lhes são dados a cada noticiário, desacreditam da eficácia do exercício da cidadania e da vida democrática. O que é dramático.