Visão Solidária

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Palavra de Cidadão de Filipe Lopes

Ano da Cidadania

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Contador de histórias profissional, é uma das caras de um núcleo cultural sediado em Tomar, que realiza acções de promoção da leitura, formação e espectáculos de humor. Em escolas, Hospitais, prisões

"Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti". O adágio popular é construído na negativa e essa não é minha noção de cidadania ou solidariedade. Com todas as minhas imperfeições e erros tento colocar-me na pele do outro, pensando como gostaria que me tratassem se estivesse naquela situação. Pode parecer um preciosismo semântico mas, para mim, faz toda a diferença.

Escolhi tornar-me útil à sociedade através daquilo que mais gosto de fazer: tentar mostrar, sobretudo onde é mais difícil, que os livros, a leitura, a cultura e a arte são fundamentais para uma vida equilibrada. Faço-o no meu trabalho profissional, como dinamizador cultural, como contador de histórias, como editor... Faço-o da mesma forma no meu trabalho voluntário, quando não há fundos nem apoios que o permitam de outra forma, com o mesmo empenho e dedicação. Em hospitais, em estabelecimentos prisionais, apoiando com o pouco que sei instituições dedicadas ao trabalho com crianças e jovens em risco, por exemplo. Mas tento também, quando conto histórias numa escola ou biblioteca, quando faço um recital de poesia para adolescentes, chamar a atenção para estas realidades. Sem lições de moral, lembrar que há meninos que sofrem enquanto estamos felizes a ouvir um conto. E, perante isto, os meus pequenos ouvintes são muitas vezes mais adultos que os "crescidos". Usar a poesia para falar dos comportamentos, de como as dependências estão ao virar da esquina, de como um livro pode dar tanto prazer como uma substância ilegal qualquer. É quando sentimos o silêncio na sala e os olhares fixos em nós que sabemos ter tocado em algum ponto da vida daqueles jovens e esperamos que isso lhes possa ser útil.

Não descobri a minha vertente solidária por algum episódio trágico comigo ou com os que me são próximos, felizmente para mim. Encontrei-a, ou melhor, passei a carregar este peso da sua inevitabilidade, por causa dos livros que fui lendo, da minha família incansável no respeito pelos outros, na sorte de ter encontrado dois ou três professores que foram meus mestres e me souberam abrir os olhos para o mundo. Quase todos aqueles que sofreram, ou viram amigos e familiares em sofrimento, acabam por querer dar o seu contributo e caminham para um mundo mais solidário. Mas necessitamos da ajuda de todos, mesmo daqueles a quem o Destino ainda não puxou o tapete.

Costumo dizer, apelando à ajuda voluntária para humanizar os Estabelecimentos Prisionais, que, nem que seja por egoísmo, devíamos ajudar com o que pudermos e soubermos. Porque aqueles homens e mulheres que estão hoje a pagar pelos seus erros, amanhã, daqui a um mês, daqui a dez anos, vão ser o nosso vizinho do lado. Quanto mais reabilitado um recluso deixar a prisão, mais segura é a nossa sociedade. Sejamos então muito "egoístas" e façamos alguma coisa para o bem comum, que é o nosso próprio bem, em última análise."