Visão Solidária

Siga-nos nas redes

Perfil

Palavra de Cidadão de Eugénio Fonseca

Ano da Cidadania

  • 333

O presidente da Cáritas Portuguesa luta por uma nova consciência social que acabe com a pobreza

"Tenho como convicção que o compromisso pessoal que fazemos, enquanto cidadãos, de sermos parte da solução dos problemas da nossa sociedade é a única forma de sermos no nosso tempo e no nosso mundo protagonistas da diferença e da transformação. É sob este princípio que procuro orientar a minha vida e, penso mesmo, se assim não fosse de nada valeria o meu desempenho na Cáritas Portuguesa. Não viveríamos os problemas que estamos a viver se, de uma forma geral, todos os cidadãos e cidadãs tornassem mais operativas as suas convicções teóricas e os anseios de prosperidade.

A falta de "cidadania ativa" (e é revelador o fato de termos de dar à palavra "cidadania" o adjetivo "ativa") é um dos fatores que trouxe o país à atual situação. Urge, assim, estreitar a distância que fica entre ser sociedade civil e ser agente ativo e promotor de "pensamento social", agindo em conformidade. Quando fui chamado a desemprenhar as minhas atuais funções na Cáritas Portuguesa senti que estava a ser desafiado a exercitar os meus deveres de cidadão, acrescentados de significado pelo compromisso decorrente da minha condição de cristão. Senti que não fazia sentido "reclamar" direitos e pedir justiça e partilha de bens, mas que deveria intervir quando a isso era impelido.

A decisão de aceitar sair do meu lugar para ir ao encontro dos outros é viver a cidadania. Ficar de fora como "debitador" de sentenças e não me dispor a intervir não faz parte da minha postura. Não está no meu ADN nem no meu modo de ser cristão católico. A experiência leva-me a pensar que a luta contra a pobreza exige também uma nova consciência social. É urgente que todos percebamos isto, sob pena de continuarmos a colocar os pobres no "banco dos réus" pela condição em que vivem e não as causas que estão na origem da pobreza. Obriga-nos ainda a ter um novo olhar sobre este persistente fenómeno social, assumindo a convicção de que não se trata de uma fatalidade, mas que é possível a sua erradicação, pelo menos nas suas expressões mais agressivas.

Outra dimensão a ter em conta é que as questões da pobreza não se situam apenas no domínio das insuficiências económicas e sociais, é, antes de mais uma questão de violação de Direitos Humanos. São todas estas realidades que pautam a missão da Cáritas em Portugal. É disto que falo nas minhas múltiplas e diversificadas comunicações e é esta a herança que quero deixar aos meus filhos e um dia aos filhos deles.   

 Este tem que ser um trabalho de toda a sociedade e não apenas de alguns dos seus grupos minoritários. Quando assim for, a sua capacidade para influenciar as decisões políticas reforçará, decisivamente, o empenhamento dos governos em cumprir compromissos assumidos.É imprescindível que a sociedade, no seu todo, participe na definição e concretização das estratégias consideradas necessárias. No respeito pela subsidiariedade, as organizações da sociedade civil devem atuar naquilo que sabem fazer melhor: evitar duplicações e desperdícios; ser participativas; credíveis e prestar contas, de modo a conquistar a confiança dos destinatários da sua ação e da sociedade em geral.Para isso é preciso reconhecer que o desenvolvimento não tem apenas uma dimensão económica mas que existe uma inegável inter-relação com a dimensão humana e social, ou seja, ela depende, também, da forma como nós exercemos a nossa cidadania."