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Palavra de cidadã de Rosalia Vargas

Ano da Cidadania

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Para a presidente da Ciência Viva a palavra cidadania tem diversos significados

"Há palavras que soam bem. Uma delas é cidadania.Sempre me pareceu uma daquelas palavras que têm dimensão e sentido, que crescem com as pessoas. Não é por acaso que se diz que uma criança ao nascer é um cidadão, cheio de direitos que vão crescendo para deveres na direta proporção da roupa que vai deixando de servir e do conhecimento que vai enchendo a mochila e depois lhe vai dando competências vida fora.

A cidadania é também uma palavra que se adaptou à modernidade e que cresceu com a sabedoria dos pergaminhos da família, desde a educação, a lei, a moral, a consciência ou a política. Nos nossos dias é até engraçado que se tenham criado lugares onde vamos comprar identidades e selos, carimbos e passaportes que nos acompanham, desde que nascemos até morrermos.

Esses lugares extraordinários têm um nome igualmente extraordinário: loja do cidadão.Depois, nas muitas etapas das nossas vidas, vamos percebendo que acumulamos dados que nos afundam e dados que nos enobrecem e assim vamos preenchendo o formulário da cidadania.

Há ainda uma ligação fundamental entre o cidadão e a cidadania, que é a palavra falada. E quem a diz? Nos dias de hoje a palavra chega-nos de muitas e variadas formas mas vamos agora buscá-la às sociedades mais simples e antigas onde, antes como agora, a cidadania exige ouvir. No livro "A Sociedade Contra o Estado", Pierre Clastres dá o exemplo da tribo guaiaqui e escreve que chefe deve falar, porque ele deve à tribo a sua palavra.

Falar é condição para ser líder. Os indígenas guaiaqui exigem do seu chefe os seus dons oratórios, a sua capacidade de proferir discursos e nessa sociedade indígena espera-se que o homem destinado a ser chefe prove o seu domínio sobre as palavras e os cidadãos guaiaqui retiram o poder ao chefe que insista em se manter silencioso. Bom, algo me diz que é melhor passar já para o registo da ciência e esquecer por agora o binómio cidadania-política.Promover a ciência é também promover uma cultura científica forte. No caso da cultura científica estamos a falar de um combate pelo saber, pela confiança na ciência, pela recusa de qualquer autoridade que não a do conhecimento.

Quando falamos de um cidadão cientificamente culto estamos a falar de alguém que desenvolveu um hábito de pensamento valioso - o pensamento científico - uma capacidade de examinar criticamente as conclusões dos outros, uma capacidade de distinguir entre o certo e o provável, uma propensão inabalável para só aceitar como válidas as conclusões fundadas em provas, na observação rigorosa e ponderada, na experimentação, no debate racional das ideias.

Este cidadão, cientificamente culto, é dificilmente manipulável e só pode ser livre. É por isso que o combate pela cultura científica é um combate pela democracia. Mas é também uma batalha pelo desenvolvimento. Ninguém hoje nega que a prosperidade das sociedades modernas depende sobretudo da qualificação dos seus recursos humanos e da capacidade da ciência e da tecnologia para gerar riqueza.

Se a universalidade é a característica da ciência, ela oferece-se, igual, a todos; mas não é por todos igualmente apropriada. Por isso, estamos certos que estimular jovens a pensar e a fazer é, afinal, criar oportunidades para a cidadania. E queremos sempre falar e ouvir falar sobre isto, não é?