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Palavra de Cidadã de Margarida Gaspar de Matos

Ano da Cidadania

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A especialista em saúde mental e promoção da saúde fala sobre o curso que tem tomado a vida dos portugueses e conclui: "este clima faz mal à saude"

"Portugal está a atravessar uma fase difícil que aliás ocorre um pouco por toda a Europa. A nível nacional a dinâmica da vivência desta crise, não está a conseguir um clima de coesão social, antes pelo contrário está a fomentar um clima de desagregação das redes sociais de apoio, do suporte social e das expectativas dos cidadãos face ao futuro. O clima é em geral depressivo e de alienação - as vidas dos cidadãos perderam a esperança, perderam o sentido, perderam o poder, perderam as regras, perderam as raízes culturais e isolaram-se socialmente.



Este clima " faz mal à saúde" e, no estudo HBSC da OMS (www.hbsc.org ) que espero conseguir fazer de novo em 2014 (apesar da crise), eu temo bem que a saúde dos jovens que vinha claramente a melhorar desde 2002, tenha dado um trambolhão, o que é lamentável: lamentável porque é a saúde dos jovens que saí prejudicada, porque são anos de politicas inovadoras a sucumbirem à "crise" e porque depois desta "má onda" será muito difícil a recuperação da confiança dos cidadãos no futuro e será mais difícil a revalorização da sua saúde, da sua educação, do seu bem estar e da sua crença na justiça social.

Diariamente confronto-me com jovens alunos universitários que pela primeira vez em duas décadas me apontam a "crise", o "desemprego", a  "pobreza" e a "falta de expectativas" como uma prioridades nas suas preocupações, evidenciando um enorme desalento face aos seus futuros e ao papel que a educação pode ter nesse futuro.

Neste momento o meu maior exercício de cidadania é criar junto destes jovens uma "distância histórica e estética", que dimensione este período das suas vidas e da história de Portugal e da Europa, devolvendo-lhes assim a perspectiva de que as sociedades evoluem por vagas, e esta é apenas uma "má vaga" que temos que tentar ultrapassar, com o optimismo e energia possíveis.

Contudo estes períodos históricos comportam vários tipos de perigos que temo bem venham a ser o nosso próximo desaire. Por um lado há um terreno fecundo e favorecedor do aparecimento de totalitarismos políticos, sociais, económicos ou religiosos; por outro lado há a emersão de cidadãos medíocres e oportunistas que "em nome da crise" delapidam (ainda mais) o nosso bem estar diário, por exemplo nos nossos locais de trabalho, na mira de um "pequeno poder" que nunca conseguiriam ter numa sociedade urbana e estabilizada. Os "pequenos poderes" dos medíocres, invejosos e oportunistas da crise, são uma praga tão grande como a "crise" em si. 

O meu segundo exercício de cidadania é combater diariamente estes " pequenos poderes", que fazem Portugal regressar a um feudalismo, a uma iniquidade, a uma sujeição à prepotência, a uma discriminação, a uma perseguição que pensei não iríamos mais viver num pais europeu desenvolvido.

Os cidadãos estão debilitados e a precisar de uma réstea de esperança. Se os portugueses não mantêm uma coesão social ficam mais à mercê das consequências da crise, dos "totalitarismos" e ainda da acção dos "oportunistas da crise"

Para mim a promoção da coesão social seria a solução. A solução económica tem de ser centrada nas pessoas, nos seus sonhos e nas suas vidas. Se os portugueses deixam de sonhar a sua saúde fica debilitada e o seu pais também."