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Palavra de Cidadã de Luísa Lobão Moniz

Ano da Cidadania

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Para a professora, os direitos das crianças defendem-se no dia a dia

 - Bom dia, é para o Bairro do relógio, se faz favor.

- Desculpe, mas o que vai fazer para lá? Eu depois das 5 horas não faço serviço para lá. Tenha cuidado.

-Sou professora e fui lá colocada.

E assim foi continuando a minha conversa com o motorista de táxi sobre o marginal Bairro do Relógio, também conhecido pelo "Camboja".

A escola tinha quatrocentos e tal alunos, todos problemáticos. A turma mais indisciplinada com mais dificuldades de aprendizagem foi-me atribuída.

Quando entrei na sala e vi aqueles meninos de várias origens culturais e étnicas a olharem para mim como quem diz "mais uma..." senti que ia ser um grande desafio profissional. Hoje sei que foi também um grande desafio pessoal porque sou uma pessoa diferente, aprendi muito com estas crianças e com as famílias.

Vi ao vivo e a cores aquilo que só conhecia dos livros e dos filmes... foi doloroso e desafiante.

O Bairro era de casas pré fabricadas onde as mulheres vendiam droga, através dos filhos, os pais eram traficantes... e a escola era obrigatória.

Crianças que iam para a escola com roupa de Inverno quando era Verão e com roupas de Verão quando era Inverno...alguns rapazes seguravam as calças, grandes demais para os seus corpos franzinos, com uma corda fininha, não tinham cuecas. Às vezes até iam com o pijama e uma camisola. As raparigas iam, por vezes, com camisolas de adulto..., com sapatos apertados porque não tinham outros, cortavam a ponta do sapato para, ao menos, terem os dedos mais libertos, já que a auto-estima estava muito apertada.

Era-me impossível ficar indiferente...

Lembro-me de um menino de oito anos que ia drogado para a escola, drogava-se com gasolina e com cola.... Um dia esteve 20 minutos em cima de uma mesa a gritar...

Nessa altura não havia apoios sociais que tratassem destas questões.

Uma das instituições, a que fui bater à porta, respondeu-me, " pois é, tem razão...enquanto não forem apanhados a roubar ou a agredir pessoas na rua ninguém faz nada e, depois, são menores...". Todas as portas se fechavam porque não tinham meios para acompanhar estes casos.

Numa tentativa imparável de encontrar quem pudesse ajudar esta criança e a sua família telefonei para a Linha Verde, das Taipas, e graças a ela o menino tornou-se homem, com saúde, e a sua família foi tratada de hábitos de alcoolismo.

Foi um processo doloroso para todos, mas com a vontade inabalável desta criança e a de uma tia analfabeta conseguimos ir até ao fim.

 

Este exemplo fez-me acreditar ainda, com mais força, de que é possível desviar o rumo para o abismo para um caminho sem pedregulhos.

Não se falava em Direitos da Criança, nem em Direitos Cívicos num bairro que tinha criado os seus próprios Direitos: ser solidário entre eles durante as rusgas da Polícia, as crianças levarem a droga ao consumidor, as mulheres pesarem-na em casa. Era a lei de olho por olho, dente por dente.

Estes meninos andavam numa escola que os acolhia, mas não sabia como lidar com esta realidade, não havia assistentes sociais, não havia psicólogos, não havia formação para gerir estes problemas senão a sensibilidade de cada um.

Era uma Escola com meninos e meninas magoados e maltratados que não confiavam em ninguém. Tinham medo de serem novamente rejeitados. Gostar da professora para quê? Para ela chamar a mãe e dizer que ele não aprende e que se porta mal. Isso não era novidade, mas era o suficiente para levarem grandes tareias...

Os meninos e as meninas deste Bairro tinham agarrado à pele a violência e a necessidade de afecto, tinham fome, mas repartiam o lanche da escola com todos, tinham um sentimento de justiça muito forte e faziam-na com as suas próprias mãos. Diziam palavrões e insultavam alguns professores, mas quando gostavam de algum eram os seus melhores amigos e até os protegiam se houvesse algum problema.

Eram os donos do bairro, andavam pelas ruas sem nome (eram a rua I, a rua L...), tinham cães de orelhas murchas, rabo entre as pernas e olhar triste como se tivessem desistido da sua vida de cão, passavam o dia deitados à espera que alguém lhes desse comida ou afecto tal como os seus pequenos donos.

Estes meninos e meninas respiravam violência e cresciam a saber que, ou eram os líderes

ou tinham que se submeter às leis por aqueles ditadas, estes meninos e meninas com mãos habituadas a fecharem-se  para um soco bem dado, tratavam com carinho os seus cães.

Um dia, na sala de aula, o "Pio", alcunha dada pelos colegas, levantou-se num ápice, correu para a janela e gritou uma série de palavrões "ó cabrão não, não atravesses agora!" para que o seu pequeno cão, malhado de preto e branco o " Bolinhas", não fosse atropelado.

" Oh professora, o Bolinhas não sabe atravessar a rua..."

Este menino era filho de mãe alcoólica cuja aparência era de desleixo, mas para quem o menino corria quando saía da escola. O pai era engraxador no Rossio e batia por tudo e por nada. O "Pio" tinha uma expressão de quem não sabia muito bem o que lhe ia acontecer fosse quando fosse, mesmo na sala de aula...

Esteve desaparecido durante três dias...

Para estes meninos não havia instituições que os protegessem apenas os "colégios" dos quais fugiam.

Quantas vezes me vinha à cabeça o filme "Feios, porcos e maus"!

"Os Direitos da Criança" eram levarem pancada, conviverem com a violência doméstica, irem ver os pais ou as mães à cadeia, era dizerem que o tio estava de precária, que outro tio estava no EPL.

Estes meninos e meninas tinham 8 anos, agora terão 27 anos, alguns deles continuaram a viver uma vida de desconforto, de mal-estar social, de falta de reconhecimento pelos que os marginalizam, de falta de auto-estima, de falta de emprego. Estes meninos agora adultos continuam a sofrer a crise que conheceram ainda na barriga das mães, estas meninas já são mães e já recorreram à Polícia por violência doméstica. Outros estão empregados, não se esqueceram da infância difícil que tiveram, e lutam dia-a-dia para viverem uma vida melhor, e conseguem-no.

É por causa destes e de outros meninos e meninas que continuo a acreditar que não há determinismos históricos, há o conhecimento de que a vida pode ter muitas facetas e eu tenho que lutar pela faceta que em que mais acredito.

A mim, cabe-me o dever de combater a ignorância em nome da dignidade humana daqueles que têm sido excluídos e maltratados."