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'A realidade não muda à velocidade dos discursos'

Ano da Cidadania

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José Caria

Os mais recentes dados do Eurobarómetro confirmam: a crise tem um especial impacto sobre as mulheres. Eis as explicações da eurodeputada bloquista, Marisa Matias, convidada do debate que decorreu no Dia Internacional da Mulher, no gabinete do Parlamento Europeu, em Portugal

Por que razão a crise tem mais impacto sobre as mulheres?

Em tempos de crise, é frequente que os impactos mais fortes se abatam sobre os mais fracos. A crise não afeta todos por igual e quem trabalha com vínculos precários, com poucos ou nenhuns direitos, quem está no desemprego, quem depende do apoio do Estado por falta de saúde ou de trabalho é o primeiro alvo. As mulheres são mais nessa situação, são mais entre os que estão no desemprego, logo, são mais afetadas, no conjunto da população. Há, ainda, mais mulheres a viver sozinhas, sobretudo em idades mais avançadas. E, na generalidade das culturas, a maior carga da vida familiar e do cuidar cabe também às mulheres, pelo que os efeitos da crise são a somar.

E sobre as mulheres portuguesas?

As mulheres portuguesas vivem numa sociedade onde, nos últimos anos, as desigualdades aumentaram, ao invés de diminuírem, onde a crise as empurrou para casa mais do que antes. Em Portugal, somam-se ainda níveis de violência persistentes e que a crise teima em reforçar. É a violência doméstica, por exemplo, que continua a atingir muitas mulheres e se vê aumentar em tempos de crise. As ramificações da crise nas formas de violência são muito vastas. Lembro-me sempre das palavras de Aysha, uma mulher palestiniana, há uns anos, em Gaza.

Não tinha o que comer nem o que dar de comer à neta. Disse-me: as mulheres veem demais e mais do que os homens porque veem o que se passa fora e dentro de casa.

E veem partir, morrer. E isso coloca nos ombros das mulheres um fardo adicional.

E que respostas oferecem para resolver crise?

Sendo as mais lesadas, as mulheres estão, necessariamente, na linha da frente no combate à crise. Mas o que é preciso é que mulheres e homens, em conjunto, resgatem as suas vidas, os seus direitos e, porque não, o direito a voltar a ter um futuro mais justo.

A injustiça não faz parte do imaginário da maioria social, pelo contrário, é a luta por um futuro melhor que nos une.

Cem anos depois das primeiras manifestações a favor da igualdade entre géneros, o que falta ainda fazer para a alcançar?

A desigualdade entre homens e mulheres tem uma base milenar. Houve imensas conquistas, nos últimos anos, e vemos, agora, com a crise, alguns recuos. Mas cem anos não são suficientes para eliminar a desigualdade enraizada na esmagadora maioria das culturas. Por exemplo, as leituras dominantes que se fizeram ao longo de séculos das religiões maioritárias conferiram à mulher um papel submisso ou de obediência, o ser que resultou da costela do homem, mesmo tendo em conta que as leituras dos livros são feitas por humanos. O problema é a desigualdade nas sociedades e a sua reprodução, que vai muito para além de explicações deste tipo, as quais, por si só, não justificam a injustiça nem a opressão.

Como é vista a questão a nível europeu?

Hoje, na Europa, o discurso é o da igualdade e da justiça mas a realidade não muda à velocidade dos discursos. A igualdade ganhou estatuto e direito de valor inquestionável, na Europa, mas o problema é que a realidade está atrás. As instituições europeias têm-se batido pelo fim da violência contra as mulheres, que se repete vezes demais por todo o mundo, pela maior participação das mulheres nas esferas de decisão, entre outros progressos. Já no que diz respeito, por exemplo, à desigualdade salarial têm tido uma posição tímida e é inadmissível que não vingue ainda um direito tão básico como o do salário igual para trabalho igual.

B.I.

EURODEPUTADA

Investigadora do Centro de Estudos Sociais e doutorada pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, tem vários trabalhos publicados na área do ambiente e da saúde pública.

Eleita para o Parlamento Europeu em 2009, faz parte do grupo da Esquerda Unitária