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Um herói sonha. E faz

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Nuno Neto (à esq.) criou a APEXA, uma associação de apoio a jovens com deficiência. O filho mais novo, Tito Neto (à dir.), com espinha bífida, foi a fonte de inspiração

Vasco Célio / Stills

Pai de um rapaz com espinha bífida, Nuno Neto decidiu criar uma associação para se ajudar a si e a outros pais. Conheça a história do vencedor do prémio solidário Os Nossos Heróis e dos premiados com Menções Honrosas

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

"Sempre que pensamos em ter um filho só estamos preparados para que ele seja saudável. Quando vi o meu filho e percebi que ele era diferente, senti que tinha um dever maior para com ele." As palavras de Nuno Neto, 55 anos, revelam a origem da sua motivação para criar a APEXA Associação de Apoio à Pessoa Excecional do Algarve, já lá vão treze anos. Esta entrada de alma e (muito) coração no universo da solidariedade social valeu-lhe, agora, o título de Herói do Ano, no âmbito do prémio Os Nossos Heróis, promovido pela VISÃO Solidária e pela Associação Mutualista Montepio. O anúncio foi feito na sexta-feira, 9, no Teatro da Trindade, em Lisboa, antes dos concertos solidários da fadista Fábia Rebordão e dos Deolinda (que, com os donativos dos espectadores, ajudaram a angariar uma tonelada de alimentos para a Comunidade Vida e Paz).

Nuno Neto não subiu ao palco para receber a ovação do público que encheu o teatro. A essa hora, estava numa ação de angariação de fundos para a APEXA.Timidamente, revela que a notícia o apanhou de surpresa, e atribui o mérito do prémio ao trabalho desenvolvido pela associação. "Heróis são todos aqueles que acreditam no projeto", enfatiza.

A APEXA nasceu do desespero de um pai que, quando olhava para Tito, o filho mais novo, questionava-se sobre o que seria dele quando deixasse o ensino obrigatório, aos 18 anos, tendo em conta os diagnósticos de espinha bífida e hidrocefalia. "Senti que não havia respostas no Algarve para os jovens com deficiência e quis criar uma tábua de salvação que lhes trouxesse oportunidades de vida." Hoje, Tito tem 25 anos e, claro, é um dos utentes da instituição. As aulas de acordeão são o seu mais recente motivo de entusiasmo.

Afinal, foi para "o ver a fazer coisas que o façam feliz" que o pai criou a APEXA. Pelo caminho, a associação apoia, anualmente, 300 pessoas.

Nuno Neto sonha construir uma residencial para pessoas com deficiência

Nuno Neto sonha construir uma residencial para pessoas com deficiência

Vasco Célio / Stills

Tirar coelhos da cartola

"Fazer" é o verbo favorito de Nuno Neto, que se divide entre a presidência da associação e a sua empresa de construção civil. A capacidade de contornar problemas impressiona o filho mais velho, Nuno Miguel Neto, 30 anos, que arriscou candidatá-lo a Herói do Ano. "Quando surge uma situação difícil, ele é capaz de tirar coelhos da cartola para a resolver", brinca. "O meu pai é de origem humilde, não foi além do 9º ano, mas isso nunca o fez sentir-se incapaz de fazer alguma coisa com significado". Um significado que o próprio Nuno Neto tem dificuldade em compreender. "Às vezes, nem percebemos como o bem que fazemos é tão precioso." A humildade não lhe diminui a ambição.

O empresário sonha construir um centro residencial especialmente pensado para pessoas com deficiência, que lhes garanta todos os cuidados. O filho mais velho, formado em arquitetura e atualmente responsável pelas relações externas da associação, daria uma ajuda fundamental ao projeto.

A APEXA é uma organização ambiciosa desde a primeira hora. Nuno Neto sempre quis dar-lhe uma dimensão regional e não apenas local. Sediada em Albufeira, estende-se a Silves e Loulé. Os programas de apoio vão das consultas de psicologia ao desporto adaptado, passando pela estimulação através da arte.

A Intervenção Precoce acompanha 30 crianças com necessidades especiais dos 0 aos 6 anos, o Gabinete de Intervenção Social ajuda famílias em risco de exclusão social e a Integração Socioprofissional apoia os jovens na transição para a vida ativa. Em seis anos, a associação conseguiu garantir trinta estágios para os seus utentes. Neste momento, acompanham 12 jovens a nível socioprofissional. "Se eu disser que eles fazem um estágio de seis meses a custo zero, as empresas aceitam, mas se falar em remuneração é mais difícil", lamenta. Por isso, Nuno Neto gostava que a própria APEXA tivesse a capacidade de criar oportunidades de emprego, por exemplo, tendo um restaurante próprio, uma empresa de artes gráficas ou até uma banda filarmónica.

Apesar de focada nos jovens com necessidades especiais, a instituição criou o Pescador de Sonhos para resgatar alunos (com ou sem deficiência) em risco de abandono escolar. Atualmente, seguem 150 estudantes.

A fisioterapeuta Ana Santinhos, 31 anos, faz parte da dúzia de técnicos da associação, e admira a capacidade de ouvir do presidente: "Valoriza sempre a opinião da equipa." A exceção, conta Nuno Miguel Neto, é quando o pai domina os problemas. "Se houver uma fechadura avariada na APEXA, ele não espera por ninguém, vai arranjá-la." Ana Santinhos não tem dificuldade em vê-lo como um herói: "Tem feito tudo para manter a associação a funcionar, apesar das dificuldades financeiras." "Os heróis não precisam de superpoderes", lembra Nuno Miguel. "Basta a vontade de fazer acontecer". E, para Nuno Neto, não há sonho que não possa ser realidade.

CONHEÇA AS HISTÓRIAS DOS VENCEDORES DAS MENÇÕES HONROSAS:

Miguel Neiva, ColorADD

Rosa Vilas Boas, Ajudaris

Maria de Lurdes Macedo, Orientar

  • Miguel Neiva: Dar cor à vida

    VISÃO Solidária

    Além do vencedor do título de Herói do Ano, também foram atribuídas três Menções Honrosas no âmbito do prémio Os Nossos Heróis, promovido pela VISÃO Solidária e pela Associação Mutualista Montepio. Conheça a história de Miguel Neiva, criador do ColorADD, um código universal de cores que garante a integração das pessoas daltónicas

  • Rosa Vilas Boas: Uma rede de afetos

    VISÃO Solidária

    Além do vencedor do título de Herói do Ano, também foram atribuídas três Menções Honrosas no âmbito do prémio Os Nossos Heróis, promovido pela VISÃO Solidária e pela Associação Mutualista Montepio. A fundadora da Ajudaris quis criar uma rede tão forte como a que a ajudou na infância

  • Maria de Lurdes Macedo: Criar novas oportunidades

    VISÃO Solidária

    Além do vencedor do título de Herói do Ano, também foram atribuídas três Menções Honrosas no âmbito do prémio Os Nossos Heróis, promovido pela VISÃO Solidária e pela Associação Mutualista Montepio. Ajudar os outros a mudarem de vida é a missão de Maria de Lurdes Macedo