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"A concorrência entre as instituições sociais existe e é brutal"

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Luís Barra

Em entrevista à VISÃO, Francisco Mello e Castro, fundador da Let's Help, fala numa "luta de egos, em que ninguém se junta nem cria parcerias"

Alexandra Correia

Alexandra Correia

Entrevista publicada na VISÃO 1238 de 24 de novembro

Jornalista

Francisco Mello e Castro tem 23 anos, é de Sintra e frequentou o curso de Gestão da Universidade Nova de Lisboa. Faltam-lhe algumas cadeiras para terminar a licenciatura, que ficou em suspenso com o nascimento da Let's Help, uma plataforma sem fins lucrativos dedicada ao empreendedorismo social. Tudo começou há cinco anos, tinha Francisco 18, quando o seu pai o levou a uma missa de Natal na comunidade da Vale de Acór, em Almada, uma associação que acolhe e recupera pessoas com dependências. "Fiquei muito impressionado com as histórias de ex-toxicodependentes, pessoas que chegaram a estar quase a morrer numa sarjeta e que recuperaram a vida e construíram uma família. Foi uma situação emocionalmente muito forte para mim", conta o jovem, que se tornou voluntário nessa associação. Junto com uma amiga, organizava um evento de solidariedade para apoiar a comunidade. E, embora o evento conseguisse dar um lucro de cerca de 15 mil euros à Vale de Acór, Francisco Mello e Castro sentiu que não era sustentável, pois apenas tapava um buraco que todos os anos se voltava a destapar.

E assim começou a pensar nos negócios sociais. Ao contrário das instituições, estes têm fins lucrativos, mas não para meter o dinheiro no bolso. O lucro é sempre reinvestido no negócio, de forma a que este chegue a cada vez mais pessoas, resolvendo um problema social. Francisco lança a Let's Help para impulsionar esses negócios, investindo neles, como um "Shark Tank da área social".

Como nasceu a Let's Help?

Comecei a Let's Help depois de fazer uma ação de voluntariado, com uma amiga, em que organizámos um evento em favor da Associação Vale de Acór, uma comunidade terapêutica que trata de toxicodependências, em Almada. Acontece que o evento que fazíamos era, a meu ver, pouco sustentável. Até tinha lucro, rendia cerca de 15 mil euros por edição, mas a questão não era essa. O dinheiro angariado pelo evento servia para tapar um buraco e todos os anos era preciso tapar o mesmo buraco. Ou seja, estávamos no domínio do assistencialismo. A questão era como tornar a associação sustentável sem que fosse preciso fazer esse evento todos os anos. A vida das instituições é feita assim, com a corda ao pescoço, tentando tapar buracos, sem uma lógica de longo prazo. E como estão sempre preocupadas com a urgência do dia a dia, nunca têm tempo para conseguir planear e olhar para o longo prazo.

Como é que se resolve isso?

Comecei a pesquisar e percebi que, fora de Portugal, existem bastantes casos de sucesso do que se chama as "empresas sociais". São instituições geridas como empresas e, portanto, muito mais eficientes. Em Portugal há um potencial enorme para criar empresas sociais de raiz ou para ajudar as instituições a criar um negócio social dentro das suas estruturas. A diferença entre a instituição e o negócio social é que este tem uma componente comercial clara que, de alguma forma, pretende resolver um problema social. O negócio social tem como objetivo maximizar a riqueza, criar emprego, etc, reinvestindo constantemente os lucros, em vez de os distribuir pelos acionistas, ao contrário do que acontece numa empresa privada. É que, se se reinvestir o dinheiro no crescimento do negócio, este vai ter mais impacto social, vai chegar a mais gente. É esta a lógica.

Por exemplo...

O caso da Reclusa, um dos projetos que a Let's Help reestruturou, investindo tempo e dinheiro. É uma instituição sem fins lucrativos criada pela Inês Seabra, em 2010, com o objetivo de resolver um problema social: a reintegração de mulheres que saem da prisão. Acontece que foi reestruturada de uma forma emocional, muito apaixonada pela causa, mas sem uma estrutura profissional. Embora com um grande potencial para se tornar num negócio social, com os acessórios de moda que eram feitos dentro da prisão de Tires, o problema é que não tinham design, inovação, qualidade suficiente... Estava maltratada, mas era uma marca.

E a Let's Help investe nesses negócios sociais.

A nossa primeira ideia era investir 5 mil euros para a Reclusa comprar máquinas de costura, mas percebemos que não ia adiantar nada, havia problemas muito mais profundos que estavam na origem da estagnação e descida das vendas. Percebemos que, com as mudanças certas, este negócio podia ser sustentável. Então partimos a casa, literalmente, para reconstruir as fundações. Num ano investimos 1200 horas de trabalho e 10 mil euros, com carta branca para tomar as decisões estratégicas. Nós somos impulsionadores de negócios sociais e o nosso lema é: "Ganhar em vez de pedir; investir em vez de dar". Não pedimos dinheiro a ninguém; ganhamolo através de projetos comerciais que desenvolvemos.

Que projetos são esses?

Eventos comerciais como o Jantar do Ano, um evento gastronómico que reúne chefes de renome nacional no Convento do Beato. O preço das entradas varia, mas situa-se entre os 35 e os 45 euros. O ano passado foram 500 pessoas e este ano conseguimos levar lá 800.

E temos mais marcas envolvidas como patrocinadoras, além da Adega Mayor, que é o patrocinador principal. A edição deste ano deu um lucro de 25 mil euros, pegamos neste dinheiro e colocamos no nosso fundo, através do qual investimos em negócios sociais.

E quando investem num negócio ficam com uma quota?

Ainda estamos numa fase muito inicial e, em Portugal, não existe a figura jurídica que permita a existência de empresas sociais. A Reclusa é um negócio social, mas juridicamente é uma instituição sem fins lucrativos, portanto não podemos deter quotas nesta instituição. Funcionamos através de protocolos. Percebi que, neste setor, para se estar a investir em negócios sociais, temos de ter uma grande proximidade deles. Se nos limitarmos a dar dinheiro nada vai funcionar e a Reclusa é bem exemplo disso, não nos limitamos a dar consultoria, estamos aqui a implementar as ideias.

Não têm uma lógica assistencialista, portanto espera o retorno dos 10 mil euros que investiram...

Se o projeto correr bem, o dinheiro volta para a Let's Help. Sem lucro, sem remuneração do capital. A ideia é que o euro que investimos volte para poder ser usado noutro projeto. É a reciclagem do capital, criando um círculo virtuoso. Dou outra vez o exemplo da Reclusa: quanto mais acessórios vendermos mais exreclusas podem ser empregadas. Esta é a ambição.

Que outros negócios sociais apoiam?

Vamos investir algum dinheiro no projeto Semear, um negócio agrícola de inclusão de pessoas com deficiência, apoiado pela família Soares dos Santos, sendo que os produtos serão escoados pelo Pingo Doce. Já têm 20 hectares em Oeiras para trabalhar. É um projeto de cada vez porque percebemos que é importante acompanharmos de perto os negócios, estarmos muito focados se quisermos realmente criar impacto. Temos uma equipa pequena e o grande valor da Let's Help é o facto de conseguir ter muito bons parceiros à sua volta, que juntamos e desafiamos para apoiarem projetos destes. Por exemplo, para a Reclusa chamámos a agência de publicidade MSTF Partners para desenhar toda a estratégia e a nova imagem da marca.

Quais são os critérios para selecionar os negócios que querem apoiar?

Neste momento não temos muitos critérios, confesso, justamente porque, em Portugal, não há ainda muitos negócios sociais estruturados. Nesta fase inicial somos nós que procuramos os projetos, que ainda são um num milhão. A nossa ideia é sermos o Shark Tank da área social, uma espécie de capital de risco numa lógica social ou uma aceleradora de startups sociais. E somos independentes, não vamos buscar donativos, só dependemos dos eventos que promovemos, onde vamos buscar o lucro para investir.

Como vê o mundo da solidariedade em Portugal? O que mudaria?

Foi-se deixando que o setor social se tornasse muito amador, à sombra da ideia de que resolve problemas reais da sociedade e onde as pessoas são beneméritas. Prevalece o discurso do 'Ah, são boas pessoas, estão a ajudar os pobres e oprimidos, portanto vamos deixá-los ser assim desorganizados e a fazer as coisas em cima do joelho'. É a grande falha, na minha opinião. Com o agravamento das crises económicas, muitas instituições foram fechando portas porque não tinham sustentabilidade nem estruturas profissionais. Hoje em dia, cada vez mais, há pessoas a liderar as instituições que não têm qualquer perfil para esse papel. Mas ainda se aceita que as instituições não sejam geridas como empresas, quando, pelo contrário, as instituições deviam ter um escrutínio ainda maior. Deviam ser eficientes, transparentes, profissionais, estruturadas...

O que impede essa organização?

Normalmente, quem funda instituições não são pessoas ligadas à Gestão; são pessoas ligadas emocionalmente às causas que querem defender. E ainda bem que são porque, de outra forma, o setor social também não seria construído. Só que, por vezes, as instituições ganham dimensões muito grandes e vão crescendo com emoção e paixão, mas sem estratégia, sem rumo. Uma instituição, na minha opinião, tem de ser gerida por quem tenha competência para gerir uma empresa. De outra forma, no longo prazo, não vai funcionar.

Mas nem todas as instituições têm fundos para pagar a um gestor...

É dífícil, mas há cada vez mais instituições a perceber que têm de olhar para o longo prazo e que têm de gastar dinheiro com isso. Só que quando se tem 5 mil euros para gastar, gasta-se mais facilmente em fraldas, para resolver o problema do imediato, do que em empresas de consultoria.

Mas o imediato não é uma emergência? Não se dá o peixe, ensina-se a pescar, mas quem tem fome não terá forças para ir à pesca...

Sem dúvida, é fundamental. Ninguém vai pescar cheio de fome. E vamos ser realistas: há problemas da sociedade que nunca vão poder gerar um negócio e, portanto, muitas das instituições vão ter de continuar de mão estendida. Aí não há nada a fazer senão depender da boa vontade dos outros, mas ao menos podem tornar-se mais eficientes do ponto de vista da gestão, podem ser geridas como empresas.

Está a dizer que o assistencialismo mina a solidariedade?

Imenso. A maioria das empresas ainda são irresponsáveis socialmente. Muitas empresas, pelos benefícios fiscais que têm, limitam-se a dar apenas dinheiro. Isso é bom, mas pode ser contraproducente; cria uma dependência do outro lado e não habitua as instituições a pensar no longo prazo. Na boa vontade de querer ajudar dando dinheiro estão a alimentar o mau hábito do assistencialismo, do estender a mão e ficar com ela estendida à espera que o dinheiro caia. Julgo que com esta grande crise que começou em 2008 as empresas fecharam as torneiras e essa mão estendida já foi um pouco recolhida por parte das instituições, que perceberam que não vai funcionar para sempre. Com o aumento da crise social, há um número crescente de instituições e aumenta a concorrência.

Concorrência?

Ninguém quer falar de concorrência, mas ela existe e é brutal. Existe uma luta de egos, em que ninguém se junta nem cria parcerias. Cada um olha para o seu caminho e ninguém olha para o lado, para perceber que, no mesmo espaço, em vez de haver três instituições podia haver só uma, poupando recursos e sendo mais eficiente.

Disse luta de egos?

Sim, claro. Uma pessoa não ganha um ordenado, começa uma instituição por boa vontade, vai criando ali um projeto que a deixa orgulhosa, cria-se um sentimento de posse... grande parte das instituições são one man show, giram à volta de uma pessoa, alimentam-lhe o ego... Por aí também há falhas, mas estas acontecem sobretudo antes, quando o resto dos setores de atividade aceitam que o setor social seja inferior em responsabilidades e em deveres e direitos, merecendo uma condescendenciazinha. É o que tem matado este setor.