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Rede Europeia Anti-Pobreza obriga a olhar para os pobres há 25 anos

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Para assinalar os seus 25 anos, a EAPN Portugal está a preparar diversas iniciativas, incluindo uma conferência sobre modelos económicos alternativos a 17 de outubro

José Carlos Carvalho

A delegação portuguesa da Rede Europeia Anti-Pobreza está a celebrar 25 anos de trabalho em Portugal. Em ano de aniversário, a organização lamenta que Portugal seja dos países mais desiguais da Europa

Lusa (com VM)

"Os pobres são fruto da injustiça coletiva e todos temos de olhar para a pobreza", assinala Jardim Moreira, pároco da Vitória e São Nicolau, no centro histórico do Porto, que foi escolhido em 1990, em Bruxelas, para presidir à rede EAPN (European Anti Poverty Network) em Portugal.

Um quarto de século depois de trazer para Portugal a ideia de "construir uma Europa dos cidadãos", Jardim Moreira lamenta que com a crise a situação do país tenha regredido e diz mesmo que "os pobres estão mais pobres", com uma participação do Estado "reduzida ao assistencialismo".

Mais do que "dar de comer", a finalidade da EAPN Portugal é, conta Jardim Moreira, "ajudar o país a reconhecer as causas geradoras desta situação" e proporcionar oportunidades para "todos se integrarem dignamente na vida ativa".

"A nossa linha de ação ajuda a pessoa a sair da pobreza. Ajudamos a que as pessoas desenvolvam o seu projeto pelo seu próprio pé", assinalou o responsável pela instituição com sede no Porto.

O primeiro passo da rede, criada em Portugal em dezembro de 1991, foi "ajudar a ver o que é um pobre" e mostrar que os pobres "são pessoas com direitos democráticos", numa altura em que "só serviam para dar esmola e para ganhar o céu".

"Vivemos num país onde há mais de 500 anos se criou a mentalidade do assistencialismo primário, da subsidiodependência, da ignorância e do desprezo pelos direitos humanos", assinala o presidente da rede cujo primeiro passo foi "sensibilizar e captar instituições e seus atores para a pobreza e o ataque aos direitos humanos".

Sobre as instituições de solidariedade social, critica o "assistencialismo e paternalismo em que mantêm as pessoas debaixo da sua capa com ar de gente bondosa que ajuda os outros por misericórdia".

Por contraponto, a EAPN/Portugal trabalha com as mais de 1 400 instituições associadas e com elas prepara ações de formação, partilha informação e boas práticas e "avalia se as políticas estão a atacar as causas geradoras de injustiça social".

"Procuramos trabalhar com as câmaras, comunidades intermunicipais, ministérios, partidos políticos e Assembleia da República. Sabemos que somos uma presença incómoda com a realidade que trazemos para a mesa", destaca.

Volvidos 25 anos, Jardim Moreira destaca que "a grande conquista" da rede foi não só mostrar que "em Portugal os pobres têm direitos", mas também levar a pobreza para as agendas políticas.

Antecipando os próximos anos, o responsável acredita que "será sempre necessário haver alguém que atue junto de instâncias nacionais para impedir a injustiça e o egoísmo".

Para Sandra Faria Araújo, diretora executiva da EAPN Portugal, nos últimos anos assistiu-se a "um avanço no conhecimento", defendendo porém que o país "precisa de um observatório que recolha informação sobre a pobreza nacional" que permita "uma sistematização de informação".

"Somos dos países mais desiguais da União Europeia", lamenta a diretora.

Para assinalar os seus 25 anos, a EAPN Portugal está a preparar diversas iniciativas, incluindo uma conferência sobre modelos económicos alternativos a 17 de outubro. Prepara igualmente um fórum nacional com pessoas em situação de pobreza, a 18 e 19 de outubro, um debate sobre a estratégia nacional de combate à pobreza, em novembro, e o lançamento de um livro biográfico da rede, em dezembro.